A suspensão do conflito expõe os limites da força militar, fortalece o papel da diplomacia e evidencia a ascensão de uma ordem mundial multipolar
Por Francisco José de Oliveira
O anúncio de um acordo para suspender o conflito entre os Estados Unidos e o Irã, acompanhado da reabertura do Estreito de Ormuz, representa muito mais do que o encerramento de uma crise militar no Oriente Médio. Trata-se de um acontecimento com potencial para redefinir os rumos da geopolítica global, da segurança energética e das relações de poder no século XXI.
Durante décadas, Washington buscou conter a influência iraniana por meio de sanções econômicas, isolamento diplomático e pressão militar. Israel, por sua vez, consolidou-se como o principal adversário regional de Teerã, enxergando no fortalecimento iraniano uma ameaça direta à sua segurança estratégica.
Os acontecimentos recentes, entretanto, demonstraram uma realidade que muitos analistas relutavam em admitir, mesmo diante da pressão combinada da maior potência militar do planeta e de seu principal aliado no Oriente Médio, o Irã não foi derrotado.
A infraestrutura estratégica iraniana permaneceu operacional, suas lideranças políticas mantiveram a capacidade de comando e o país continuou a exercer influência sobre importantes atores da região. Em termos geopolíticos, isso significa que os objetivos centrais de uma estratégia voltada para a rendição ou para uma eventual mudança de regime não foram alcançados.
O resultado é emblemático. Após semanas de tensão e confrontos, o caminho encontrado não foi a vitória militar absoluta, mas a negociação. Esse desfecho revela um fato incontestável: o poder militar continua a ser um instrumento relevante, mas já não é suficiente, por si só, para garantir os resultados políticos desejados pelas grandes potências.
A reabertura do Estreito de Ormuz possui importância estratégica global. Por essa passagem marítima circula uma parcela significativa do petróleo e do gás consumidos no mundo. Qualquer ameaça à sua operação provoca instabilidade nos mercados internacionais, eleva os custos da energia e amplia os riscos de desaceleração econômica.
Nesse sentido, a suspensão das hostilidades tende a trazer alívio imediato ao comércio global de energia. Contudo, seus efeitos mais profundos serão percebidos no campo político.
O conflito evidenciou que a ordem internacional está passando por uma transformação acelerada. O período em que os Estados Unidos exerciam uma hegemonia praticamente incontestável parece cada vez mais distante. A ascensão de novas potências, o fortalecimento dos BRICS, a ampliação das relações Sul-Sul e a crescente autonomia de atores regionais apontam para a consolidação de um cenário multipolar.
O Irã emerge desse episódio com ganhos políticos significativos. Mesmo submetido a ataques e a intensa pressão internacional, demonstrou capacidade de resistência e preservou sua soberania nacional. Para muitos países do Sul Global, a experiência iraniana reforça a percepção de que é possível enfrentar pressões externas sem abrir mão dos próprios interesses estratégicos.
Isso não significa que o Irã tenha derrotado militarmente os Estados Unidos ou Israel. Significa, porém, que ambos não conseguiram impor uma derrota decisiva ao Estado iraniano. Na lógica da geopolítica, resistir à ofensiva de adversários mais poderosos já pode representar uma vitória estratégica de grande relevância.
O episódio também deixa lições importantes para Israel. A superioridade tecnológica e militar demonstrou seus limites diante de fatores políticos, históricos e culturais profundamente enraizados. A estabilidade do Oriente Médio continuará a depender menos da força das armas e mais da construção de soluções diplomáticas duradouras.
O acordo anunciado sugere que o reconhecimento de que nenhum dos lados foi capaz de alcançar seus objetivos máximos pela via militar. Quando a guerra não produz vencedores claros, a diplomacia retorna ao centro das decisões.
Estamos diante de mais um capítulo da transição para uma nova configuração internacional. O conflito entre os Estados Unidos e o Irã demonstrou que o mundo já não responde exclusivamente à lógica da hegemonia unipolar. A resistência iraniana, a centralidade da energia e a necessidade de negociação revelam que a multipolaridade deixou de ser apenas uma tendência para se tornar uma realidade em construção.
O Oriente Médio continua sendo um dos principais tabuleiros da geopolítica mundial. Os acontecimentos recentes mostram, porém, que as regras desse jogo estão mudando, e talvez mais rapidamente do que muitos imaginavam.
Referências
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FIORI, José Luís. O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações. São Paulo: Boitempo, 2007.
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KLARE, Michael T. Sangue e Petróleo. Rio de Janeiro: Record, 2005.
KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
VISENTINI, Paulo Fagundes. História Mundial Contemporânea (1945-2020). Porto Alegre: Leitura XXI, 2020.
Fontes consultadas: Reuters, Al Jazeera, IEA, EIA e ONU.
Entre Mísseis e Diplomacia: o Irã Resiste e a Ordem Mundial Muda de Rumo. No Alvo com Chico Zé, 2026.

