O Brasil desafia a hegemonia financeira: o PIX, a soberania tecnológica e o caminho para o desenvolvimento

O sucesso do PIX demonstra que a soberania tecnológica nasce da capacidade do Estado de inovar, fortalecer a economia e promover o desenvolvimento nacional.

Por Francisco José de Oliveira 

Durante décadas, consolidou-se no imaginário coletivo a ideia de que os Estados Unidos representam o paradigma da modernidade tecnológica e da eficiência econômica. Entretanto, a evolução do sistema financeiro internacional revela uma realidade mais complexa. Em uma das áreas mais estratégicas da economia digital (os pagamentos instantâneos) o Brasil tornou-se referência mundial.

Segundo o relatório Prime Time for Real-Time Payments 2024, da ACI Worldwide, o Brasil consolidou-se como o segundo maior mercado de pagamentos instantâneos do planeta, atrás apenas da Índia e à frente de economias como China, Coreia do Sul e Estados Unidos. Esse desempenho evidencia que a inovação tecnológica não constitui um privilégio exclusivo das grandes potências econômicas, mas resulta, sobretudo, da capacidade institucional de formular e implementar políticas públicas eficientes.

A criação do PIX, desenvolvida pelo Banco Central do Brasil, representa uma das mais importantes inovações do sistema financeiro nacional desde a implantação do Plano Real. Ao permitir a realização de transferências instantâneas, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, o sistema reduziu custos de transação, ampliou a inclusão financeira, fortaleceu os pequenos negócios e democratizou o acesso aos meios eletrônicos de pagamento.

Enquanto isso, embora os Estados Unidos abriguem algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo, parcela significativa de seu sistema bancário ainda opera por meio de mecanismos tradicionais de compensação, cuja liquidação pode levar horas ou até dias. Esse contraste demonstra que liderança tecnológica e eficiência financeira não são, necessariamente, conceitos equivalentes.

Sob a perspectiva geopolítica, o PIX transcende a condição de instrumento financeiro e assume a dimensão de infraestrutura estratégica. Em uma economia cada vez mais digitalizada, controlar sistemas nacionais de pagamentos significa ampliar a autonomia econômica, reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer a soberania do Estado.

A economista Mariana Mazzucato demonstra que as grandes transformações tecnológicas da história contemporânea não surgiram exclusivamente da iniciativa privada, mas foram impulsionadas por Estados capazes de investir, planejar e assumir riscos estratégicos (O Estado Empreendedor, 2014). O caso brasileiro confirma essa interpretação ao evidenciar que instituições públicas tecnicamente qualificadas podem produzir inovação de alcance internacional.

Na mesma direção, o cientista político José Luís Fiori sustenta que a disputa entre as nações deixou de ocorrer apenas nos campos militar e comercial, passando a incorporar o domínio das infraestruturas financeiras, tecnológicas e informacionais como elemento central da geopolítica contemporânea (História, Estratégia e Desenvolvimento, 2014). Sob essa perspectiva, o PIX constitui, igualmente, um instrumento de fortalecimento da soberania nacional.

Entretanto, esse êxito revela uma contradição que continua a desafiar o Brasil.

Se o país foi capaz de desenvolver um dos sistemas de pagamentos mais modernos e eficientes do mundo, por que ainda enfrenta baixo crescimento econômico, desindustrialização, elevada concentração de renda e profundas desigualdades sociais?

A resposta não reside na falta de capacidade técnica da sociedade brasileira. O país dispõe de universidades de excelência, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, instituições sólidas e profissionais altamente qualificados. O problema encontra-se na descontinuidade das políticas públicas de desenvolvimento e na ausência de uma estratégia nacional capaz de integrar inovação, política industrial, ciência, tecnologia, educação e desenvolvimento produtivo.

O economista Dani Rodrik observa que nenhuma economia alcançou desenvolvimento sustentável sem planejamento estratégico, fortalecimento da capacidade produtiva e políticas industriais consistentes (Straight Talk on Trade, 2018). De forma convergente, o economista e prêmio Nobel Joseph E. Stiglitz argumenta que mercados eficientes dependem de instituições públicas sólidas e de um Estado capaz de coordenar investimentos estratégicos (Globalização: como dar certo, 2007).

O êxito do PIX demonstra precisamente essa capacidade do Estado brasileiro. Quando há planejamento, competência técnica e compromisso com o interesse público o país produz resultados capazes de se tornar referência internacional.

O desafio consiste em transformar essa experiência bem-sucedida em uma política permanente de desenvolvimento nacional. A mesma capacidade institucional que tornou o Brasil referência mundial em pagamentos instantâneos pode impulsionar setores estratégicos como inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, infraestrutura digital, energias renováveis e reindustrialização.

Mais do que uma inovação financeira, o PIX simboliza a possibilidade concreta de um projeto nacional baseado na soberania tecnológica, na modernização produtiva e na inclusão social. Demonstra que o Brasil reúne condições objetivas para ocupar uma posição de maior protagonismo na economia mundial.

O futuro dependerá menos da capacidade técnica amplamente comprovada do país e mais da capacidade política de transformar experiências exitosas em um projeto nacional de desenvolvimento comprometido com a justiça social, a inovação, a competitividade econômica e a soberania.

No Alvo com Chico Zé — Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia e do desenvolvimento do Brasil.

Referências

ACI WORLDWIDE. Prime Time for Real-Time Payments 2024. Omaha: ACI Worldwide, 2024.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. PIX: Sistema de Pagamentos Instantâneos. Brasília: Banco Central do Brasil, 2026.

FIORI, José Luís. História, Estratégia e Desenvolvimento. São Paulo: Boitempo, 2014.

MAZZUCATO, Mariana. O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor público versus setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014.

STIGLITZ, Joseph E. Globalização: como dar certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.