O imperialismo não começa com bombas, mas com narrativas. Antes da intervenção, fabricam-se inimigos; antes da expropriação, constrói-se a legitimidade.
Por Francisco José de Oliveira
Na minha análise, compreendo que as disputas internacionais não começam com bombas ou tropas, começam pela linguagem. Quem controla o discurso influencia a percepção da realidade, define quem será considerado aliado, inimigo, ameaça ou parceiro. Na geopolítica, as palavras são instrumentos de poder.
Após os atentados de 11 de setembro de 2001 os Estados Unidos declararam a chamada “Guerra ao Terror”. A partir daquele momento o combate deixou de se restringir aos responsáveis pelos ataques e passou a ser direcionado a uma categoria ampla que até hoje não possui uma definição universal consensual no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa narrativa conferiu legitimidade política para intervenções militares, sanções econômicas e mudanças de regime em diferentes partes do mundo.
Michel Foucault demonstrou que conhecimento e poder caminham juntos. Jacques Derrida, por sua vez, evidenciou que a realidade social é permanentemente construída pelos discursos. Assim, quem detém o poder de nomear também influencia quem poderá ser isolado, sancionado ou combatido. Na política internacional, definir quem é “terrorista”, quem representa uma “ameaça à democracia” ou quem constitui um “Estado falido” nunca é um ato puramente técnico, trata-se, sobretudo, de uma decisão política.
Ao longo das últimas décadas, países detentores de grandes reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos tornaram-se frequentemente palco de intensas disputas geopolíticas. A Venezuela é um exemplo emblemático dessa realidade, por reunir enormes reservas energéticas e ocupar uma posição estratégica na América do Sul.
O Brasil também desperta interesses internacionais. O pré-sal, o nióbio, o lítio, as terras raras, a Amazônia e a extraordinária capacidade de produção de energia renovável colocam o país entre os mais estratégicos do século XXI. Em um cenário de crescente competição global por recursos naturais críticos, defender a soberania nacional significa proteger não apenas o território, mas também a autonomia política, econômica e tecnológica do Brasil.
Não se trata de afirmar, sem evidências, que exista um plano definido de intervenção contra o Brasil. Trata-se de reconhecer que, historicamente, narrativas políticas já foram utilizadas para legitimar ações externas sobre Estados soberanos. Por isso, toda tentativa de transformar conceitos políticos em justificativa para pressões internacionais deve ser analisada com espírito crítico, rigor analítico e compromisso com os fatos.
Defender a soberania não significa rejeitar a cooperação internacional. Significa afirmar que nenhum país tem o direito de impor sua vontade a outro por meio da força, de sanções unilaterais ou de discursos que ocultem interesses econômicos e estratégicos sob o manto de valores universais.
A história demonstra que impérios raramente se apresentam como impérios. Geralmente falam em liberdade, segurança, democracia ou combate ao terrorismo. Assim, a primeira trincheira da soberania continua sendo a consciência crítica. Antes de ocupar territórios, ocupam-se narrativas, antes de controlar riquezas, busca-se controlar a forma como o mundo interpreta os acontecimentos.
Quem domina as palavras amplia sua capacidade de influenciar os rumos da política internacional. Defender um mundo multipolar, baseado no respeito ao Direito Internacional, na autodeterminação dos povos e na soberania dos Estados, é defender uma ordem internacional mais justa, equilibrada e democrática.
No Alvo com Chico Zé
— Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia, da geopolítica e do desenvolvimento do Brasil.
Referências
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.
HARVEY, David. O novo imperialismo.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas(1945).

