Por Chico Zé – Cientista Social
Vivemos uma época em que a mentira deixou de circular apenas como boato isolado para se transformar em um instrumento sofisticado de disputa política, econômica e cultural. No século XXI, a desinformação passou a operar de maneira industrial, utilizando tecnologia, redes sociais, inteligência artificial e estratégias emocionais para moldar percepções coletivas e influenciar decisões sociais.
Nesse cenário, compreender como os discursos são construídos tornou-se uma necessidade democrática. É exatamente aí que a semiótica, ciência que estuda os signos, os símbolos e os processos de produção de sentido, ganha importância estratégica no debate contemporâneo.
Mais do que uma área acadêmica restrita às universidades, a semiótica oferece ferramentas fundamentais para entender como determinadas narrativas conseguem transformar o falso em algo aparentemente verdadeiro. A disputa atual não acontece apenas no campo político tradicional, ela ocorre, sobretudo, no terreno da linguagem, das emoções e da construção simbólica da realidade.
A produção da verdade e da aparência
Os estudos semióticos desenvolvidos por pensadores como Ferdinand de Saussure, Charles Sanders Peirce e, posteriormente, aprofundados por Roland Barthes e Algirdas Julien Greimas ajudam a compreender que a comunicação nunca é neutra. Todo discurso carrega interesses, valores, disputas e formas específicas de organizar a percepção da realidade.
Foi Barthes quem demonstrou, em Mythologies, como a cultura de massa transforma construções históricas em aparentes verdades naturais. A publicidade, a imprensa, o entretenimento e até discursos políticos utilizam mecanismos simbólicos capazes de naturalizar ideologias e transformar opiniões em “verdades evidentes”.
As fake news operam exatamente nessa lógica. Elas raramente aparecem como mentiras grosseiras. Pelo contrário, utilizam estética jornalística, linguagem técnica, imagens reais, números, gráficos e referências aparentemente confiáveis para produzir credibilidade. O objetivo não é apenas mentir, mas criar um efeito de verdade.
A força da desinformação está justamente no verosímil, aquilo que parece verdadeiro, mesmo sem ser.
O caos informacional como estratégia
A desinformação contemporânea não busca apenas convencer. Em muitos casos, ela procura desorganizar a capacidade crítica da sociedade.
Quando o excesso de informações contraditórias invade o cotidiano, instala-se um ambiente de confusão permanente. O cidadão deixa de saber em quem confiar, quais instituições possuem legitimidade e quais informações correspondem aos fatos concretos.
Esse processo produz o que muitos estudiosos chamam de caos epistêmico, uma realidade em que a própria noção de verdade se fragiliza.
As fake news utilizam fragmentos de notícias reais, imagens descontextualizadas, discursos pseudocientíficos e apelos emocionais intensos para provocar medo, indignação e polarização social. A mentira contemporânea não depende apenas de racionalidade, mas, sobretudo, da mobilização dos afetos.
A manipulação das emoções
Uma das contribuições mais importantes da semiótica moderna foi demonstrar que os discursos também organizam emoções coletivas.
O medo, a raiva, o ressentimento, a sensação de ameaça e a ideia de pertencimento a determinados grupos são constantemente utilizados como ferramentas políticas. A desinformação funciona, muitas vezes, como uma máquina emocional.
Grande parte dos conteúdos virais nas redes sociais não circula porque as pessoas analisaram racionalmente sua veracidade, mas porque esses conteúdos ativam sentimentos profundos ligados à identidade, à insegurança e à indignação.
A lógica do “nós contra eles” tornou-se um dos pilares da comunicação política digital contemporânea.
Inteligência artificial e a nova era da desinformação
O avanço das tecnologias digitais elevou esse problema a um novo patamar. Deepfakes, montagens audiovisuais hiper-realistas e conteúdos produzidos por inteligência artificial ampliaram drasticamente a capacidade de manipulação simbólica.
Hoje já não se trata apenas de textos falsos ou fotografias alteradas. A inteligência artificial tornou possível fabricar vídeos, vozes e discursos praticamente indistinguíveis da realidade.
Relatórios recentes da UNESCO alertam que a desinformação figura entre os principais riscos globais da atualidade, afetando eleições, instituições democráticas e a estabilidade social em diversos países.
No Brasil, o crescimento exponencial de conteúdos manipulados revela que estamos diante de uma mudança estrutural no ecossistema informacional. A velocidade da circulação das informações supera, muitas vezes, a capacidade de verificação e análise crítica da sociedade.
Além disso, o enfraquecimento das políticas de moderação nas plataformas digitais amplia ainda mais os riscos da disseminação massiva de discursos de ódio, manipulação política e campanhas coordenadas de desinformação.
O grotesco como linguagem política
Outro fenômeno importante é o crescimento do grotesco como forma de comunicação política.
Inspirado nas reflexões de Mikhail Bakhtin, é possível perceber que parte da desinformação contemporânea mistura exagero, absurdo, humor, violência simbólica e teatralização permanente.
Essa estética do excesso produz confusão entre realidade e espetáculo. O receptor oscila entre o riso, o choque e a incredulidade. Muitas vezes, o conteúdo parece tão absurdo que dificulta até mesmo sua contestação racional.
O grotesco funciona, portanto, como instrumento de saturação do discernimento crítico.
Educação midiática e consciência crítica
Diante desse cenário, a alfabetização digital precisa ir além do simples uso técnico das plataformas. É necessário formar cidadãos capazes de interpretar criticamente os discursos, compreender os mecanismos de manipulação simbólica e reconhecer estratégias de desinformação.
A semiótica oferece instrumentos importantes para essa tarefa. Ela permite analisar como os signos produzem sentido, como determinados discursos simulam credibilidade e como as emoções são utilizadas para orientar comportamentos coletivos.
Mais do que nunca, compreender a linguagem tornou-se uma condição fundamental para proteger a democracia.
Considerações finais
A crise contemporânea da informação não é apenas tecnológica. Trata-se de uma crise política, cultural e semiótica.
As fake news não surgem por acaso. Elas são construções sofisticadas, planejadas para produzir adesão emocional, gerar instabilidade informacional e enfraquecer a capacidade crítica da sociedade.
Nesse contexto, a semiótica reafirma sua importância como instrumento de interpretação da realidade e de resistência democrática. Entender como os discursos são fabricados é também compreender como a manipulação atua sobre a consciência coletiva.
Em tempos de inteligência artificial, hiperconectividade e polarização extrema, defender a verdade exige mais do que acesso à informação. Exige consciência crítica, educação midiática e capacidade de leitura simbólica do mundo contemporâneo.
Referências
• Mythologies — Roland Barthes.
• Cours de Linguistique Générale — Ferdinand de Saussure.
• Sémiotique des passions — Greimas e Fontanille.
• Dicionário de Semiótica — Greimas e Courtés.
• UNESCO — Relatórios globais sobre desinformação.
• Agência Lupa — Monitoramento da desinformação no Brasil.
