Por Francisco José de Oliveira — Chico Zé
Ao contrário da narrativa difundida pelos defensores do liberalismo econômico, o capitalismo não surgiu como expressão natural da liberdade, do mérito individual ou da livre iniciativa. Sua formação histórica esteve profundamente associada à violência, à expropriação social e à destruição das formas coletivas de sobrevivência. Desde a sua origem, o sistema capitalista carrega contradições estruturais que permanecem presentes até os dias atuais.
Entre os séculos XVI e XVIII, especialmente na Inglaterra, consolidou-se um dos processos mais decisivos para o nascimento do capitalismo moderno: os cercamentos das terras comunais (enclosures). Durante séculos, milhares de famílias camponesas viveram da utilização coletiva de florestas, rios, pastagens e terras compartilhadas. Esses espaços garantiam alimento, moradia e relativa autonomia econômica às populações rurais.
Entretanto, com a expansão do comércio europeu e o fortalecimento da burguesia agrária e mercantil, a terra passou a ser tratada como mercadoria e instrumento de acumulação privada. Amparado pelo Estado, o processo de privatização das áreas comunais expulsou milhões de pessoas de seus meios históricos de subsistência.
Aquilo que antes constituía um direito coletivo transformou-se em crime. Caçar, pescar ou recolher lenha passaram a ser práticas criminalizadas. A pobreza deixou de ser consequência das limitações naturais da vida humana e passou a ser produzida politicamente por uma nova ordem econômica baseada na concentração de riqueza.
Sem acesso à terra e privados de sua autonomia material, milhões de camponeses foram forçados a migrar para os centros urbanos, tornando-se mão de obra barata para as fábricas da Revolução Industrial. Contudo, essa transição não ocorreu de forma espontânea ou voluntária. O Estado criou leis contra a vagabundagem, perseguiu os pobres e utilizou a repressão como instrumento de disciplinamento social. Prisões, açoites e punições severas foram empregados para obrigar a população a aceitar jornadas exaustivas e condições degradantes de trabalho.
O chamado “trabalho livre”, celebrado pela modernidade capitalista, nasceu da destruição das condições materiais que garantiam autonomia aos trabalhadores.
Por essa razão, as crises do capitalismo não representam acidentes ocasionais ou falhas temporárias. Elas são manifestações das próprias contradições internas do sistema. A concentração extrema de riqueza, a exploração do trabalho, a desigualdade estrutural e a mercantilização da vida social constituem elementos permanentes da lógica capitalista.
A história econômica moderna confirma essa dinâmica. A crise de 1929, a crise financeira de 2008 e as instabilidades contemporâneas demonstram que o capitalismo produz riqueza em escala inédita, mas também amplia desigualdades, insegurança social e instabilidade política.
No século XXI, essas contradições atingem um novo patamar em razão do desgaste da hegemonia dos Estados Unidos no cenário internacional. Durante décadas, a ordem capitalista global esteve sustentada pela supremacia econômica, militar e financeira norte-americana. Contudo, os próprios limites internos desse modelo passaram a produzir crescente polarização política, precarização do trabalho, endividamento estrutural e enfraquecimento institucional.
Nesse contexto, emerge a figura de Donald Trump como expressão política dessa crise histórica. O trumpismo não constitui um fenômeno isolado, mas a manifestação de um capitalismo em desgaste, que recorre ao nacionalismo extremista, ao negacionismo científico, à radicalização ideológica e à intolerância política como mecanismos de sustentação de poder.
Os impactos desse processo ultrapassaram as fronteiras dos Estados Unidos. Lideranças autoritárias e movimentos de extrema direita em diversas partes do mundo passaram a reproduzir estratégias semelhantes, muitas vezes por dependência econômica, alinhamento ideológico ou submissão geopolítica aos interesses do grande capital internacional.
Ao mesmo tempo, a humanidade presencia uma contradição histórica profunda. Nunca se produziu tanta riqueza, tecnologia e capacidade produtiva, mas também jamais houve tamanha concentração de renda coexistindo com fome, precarização do trabalho, destruição ambiental e insegurança social em escala global.
O capitalismo contemporâneo sofisticou seus mecanismos de dominação. Se antes cercava terras comunais, hoje cerca direitos sociais, privatiza serviços públicos, transforma conhecimento em mercadoria e subordina até mesmo a vida humana à lógica financeira.
A crise atual não é apenas econômica. Trata-se de uma crise social, política, ambiental e civilizatória. O sistema revela dificuldades crescentes para manter sua legitimidade diante do aprofundamento das desigualdades e da incapacidade de garantir estabilidade, dignidade e justiça social para a maioria da população mundial.
Compreender a origem histórica do capitalismo é fundamental para interpretar o presente. O sistema que nasceu da expulsão de populações camponesas de suas terras continua produzindo novas formas de exclusão, dependência e concentração de poder.
O capital não superou suas contradições históricas. Apenas aperfeiçoou os mecanismos que lhe permitem administrar crises recorrentes enquanto transfere seus custos sociais para as classes trabalhadoras e os setores mais vulneráveis da sociedade.
Referências:
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