Por Francisco José de Oliveira
Há quem afirme que o Brasil está dividido entre dois polos políticos. Essa explicação, embora contenha elementos de verdade, é insuficiente para compreender a complexidade do momento que vivemos. O que se observa, cada vez mais, vai além da disputa entre esquerda e direita. Estamos diante de uma crise da consciência crítica, na qual a emoção substitui a razão, a crença ocupa o lugar dos fatos e a identidade política passa a ter mais peso do que a própria realidade.
Essa questão não é nova. No século XIX, o escritor russo Fiódor Dostoiévski já havia explorado, com extraordinária profundidade, os conflitos da mente humana em Crime e Castigo. Na obra, o personagem Rodion Raskólnikov acredita que pode ultrapassar os limites morais em nome de uma suposta missão superior. Contudo, descobre que a própria consciência é incapaz de conviver com a contradição entre aquilo que acredita ser e aquilo que efetivamente fez.
Décadas mais tarde, o psicólogo Leon Festinger atribuiu uma formulação científica a esse fenômeno ao desenvolver a teoria da dissonância cognitiva. Segundo o autor, os indivíduos experimentam intenso desconforto quando a realidade entra em conflito com suas crenças e convicções. Para reduzir essa tensão, muitas vezes negam fatos, reinterpretam acontecimentos ou constroem justificativas capazes de preservar suas visões de mundo.
Esse mecanismo contribui para compreender parte significativa da dinâmica política brasileira contemporânea.
Nos últimos anos, o país assistiu a episódios que dificilmente podem ser explicados apenas pela lógica da militância política. Houve manifestações em que pessoas rezavam diante de pneus em bloqueios de rodovias, buscavam sinais sobrenaturais em vídeos direcionados ao céu e interpretavam derrotas eleitorais como parte de uma suposta batalha espiritual. Em muitos desses casos, a política deixou de ser uma atividade cívica para assumir contornos de crença absoluta.
A psicologia social demonstra que, diante de frustrações profundas ou da ruptura de expectativas, grupos podem recorrer ao pensamento mágico e a narrativas simbólicas como forma de preservar sua identidade coletiva. O problema surge quando essas construções passam a substituir a análise crítica da realidade.
A filósofa Hannah Arendt advertia que uma das maiores ameaças à democracia reside na renúncia ao julgamento crítico. Quando isso ocorre a verdade deixa de ser um valor compartilhado e passa a ser definida pela conveniência dos grupos políticos. Nesse contexto, os fatos perdem relevância diante da necessidade de confirmar crenças previamente estabelecidas.
O sociólogo Émile Durkheim observou que períodos de intensa instabilidade social tendem a fortalecer comportamentos coletivos marcados pela emoção, pelo simbolismo e pelo sentimento de pertencimento. Em circunstâncias como essas, a racionalidade frequentemente cede espaço à devoção.
Não se trata de afirmar que tal comportamento seja exclusividade de determinada corrente ideológica. O fanatismo pode manifestar-se em diferentes posições políticas. Entretanto, é difícil ignorar que o bolsonarismo produziu exemplos emblemáticos da transformação da política em uma forma de crença messiânica. Para parte de seus seguidores a figura do líder foi elevada a uma condição quase sagrada, enquanto os adversários passaram a ser vistos não como opositores legítimos, mas como inimigos absolutos.
Quando isso acontece, o debate democrático é enfraquecido. Afinal, quem acredita deter a verdade absoluta tende a rejeitar o diálogo, a escuta e a reflexão crítica. A política deixa de ser um espaço de construção coletiva para converter-se em um exercício de fé.
Por essa razão, considero que o principal problema do Brasil não é a polarização política. O verdadeiro desafio consiste em recuperar a capacidade de pensar criticamente, confrontar as próprias convicções e reconhecer que nenhuma ideologia está acima dos fatos.
Dostoiévski compreendeu essa realidade há mais de um século. A consciência humana pode ser temporariamente obscurecida pelo fanatismo, mas dificilmente pode ser anulada por completo. Mais cedo ou mais tarde a realidade encontra meios de se impor.
Talvez a reconstrução democrática do Brasil dependa justamente de menos devoção política, mais consciência crítica; menos culto à personalidade, mais compromisso com a verdade; menos paixão cega, mais responsabilidade coletiva.
No Alvo com Chico Zé
Análises críticas sobre política, sociedade, democracia e geopolítica.
Referências
Fiódor Dostoiévski (Crime e Castigo), Leon Festinger (Teoria da Dissonância Cognitiva), Hannah Arendt (A Condição Humana),
Émile Durkheim (As Formas Elementares da Vida Religiosa), Sigmund Freud (Psicologia das Massas e Análise do Eu) e Gustave Le Bon (Psicologia das Multidões).


Teste
Obrigado