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por Marcio Dias
“O imperialismo norte-americano ainda não foi derrubado e possui a bomba atômica, no entanto, eu penso que ele será igualmente derrubado. Trata-se também de um tigre de papel.” — Mao Tse-Tung
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A recente derrota dos EUA — e de Israel — diante da resistência do Irã reacende o debate sobre a reconfiguração da ordem mundial. Embora alguns elementos já tenham sido discutidos anteriormente, a conjuntura atual exige nova reflexão diante desse acontecimento. A repetição, nesse caso, não é redundância, é confirmação de tendências estruturais que se aprofundam.
Ao longo das últimas décadas, o imperialismo norte-americano acumulou fracassos militares e políticos: Vietnã, Iraque, Afeganistão, Síria, Irã, além de operações indiretas contra movimentos como os Houthis. Paralelamente, intensificou sanções, bloqueios e guerras híbridas contra China, Cuba, Rússia, Venezuela, Brasil e diversos outros países. Apesar da diversidade de métodos (militares, econômicos, ideológicos e tecnológicos) o resultado converge para um mesmo ponto: a erosão progressiva da hegemonia dos EUA.
A estratégia neoliberal, combinada ao discurso de “Torne a América Grande Novamente”, não conseguiu reverter o declínio. Como observou Mao, “a luta entre o novo e o velho é inevitável; o novo sempre nasce das contradições do velho”. A crise atual expressa exatamente a incapacidade do imperialismo de resolver suas próprias contradições internas e externas.
Além das derrotas externas, os EUA enfrentam uma crise interna profunda — política, econômica, social e ideológica. A polarização crescente, a estagnação industrial, o aumento da desigualdade e a perda de legitimidade institucional revelam que o país vive uma fase de contradições estruturais que ameaça sua unidade enquanto nação e, também, corrói a sua já combalida hegemonia mundial que já não se sustenta mais.
Essa crise não é episódica. É resultado da própria lógica de acumulação, que concentra riqueza, destrói coesão social e gera instabilidade permanente. É uma crise do próprio modelo civilizacional da sociedade americana. Da democracia liberal que já não faz as entregas que o povo reclama e necessita. Com sua hegemonia global fragilizada o país perde sustentação material e ideológica.
Nesse cenário, antigos aliados se afastam e buscam alternativas no mundo multipolar em formação, impulsionado pelos BRICS. Trata-se de uma mudança qualitativa na correlação de forças internacionais. A guerra dos EUA — e Israel — contra o Irã evidenciou o esgotamento da estratégia de dominação imperialista no Oriente Médio. A resistência iraniana não apenas implodiu esse modelo, reconfigurou o equilíbrio regional, enfraquecendo a presença militar dos EUA no Golfo Pérsico e detonando o mito do “Grande Israel”.
As petromonarquias, antes pilares da ordem americana no Oriente Médio, agora adotam postura cautelosa e temerária. Embora o fortalecimento de um Estado religioso traga preocupações legítimas, a análise materialista exige reconhecer que a contradição fundamental permanece entre imperialismo e soberania nacional, e não entre modelos internos de organização política seja religioso ou não religioso.
Diante das derrotas acumuladas frente ao Irã, à China e até ao Brasil, e da relação com Israel que também se tensiona devido as negociações envolvendo o Irã e revela que até alianças historicamente sólidas enfrentam pesadas contradições e reacomodação. No próximo dias e meses o Congresso americano, marcado pela influência do lobby sionista, irá revelar que as disputas entre os interesses dos EUA e de Israel serão intensas, provocando ainda mais instabilidade política e crise estrutural do imperialismo em patamares mais elevados. Diante de tudo isso, o governo Trump terá que buscar alternativas para conter o desgaste político, principalmente, interno ou, então, sofrerá as consequências diante das próximas eleições de meio de mandato.
Nesse cenário, a América Latina volta a ocupar posição estratégica na disputa global. Historicamente tratada como “quintal” pelos EUA, a região enfrenta agora uma ofensiva renovada — econômica, midiática, jurídica e militar. Contudo, a conjuntura internacional mudou. A presença chinesa, o fortalecimento dos BRICS e a reorganização de governos progressistas ampliam o espaço de ação dos países latino americanos numa perspectiva diferenciada mesmo em meio a feroz ofensiva da extrema-direita. Porém, nada está garantido para as forças progressistas, tampouco está dado que o imperialismo repetirá com facilidade as intervenções do passado. A dialética ensina que as condições objetivas são dinâmicas e se transformam, e com elas as possibilidades de resistência.
Considerando tudo isso, é razoável concluir que as condições objetivas para que ocorram mudanças profundas na estrutura social vigente estão dadas pelo próprio apodrecimento do sistema, e a tarefa do nosso tempo é construir as ações subjetivas para a retomada da luta pelo socialismo, o que exige converter a crise geopolítica em organização revolucionária, consciência e mobilização no contexto da luta de classes.
O materialismo histórico, por sua vez, demonstra que nenhum poder cai se não houver uma força social que o derrube, nenhuma ordem nasce sem conflito, e nenhuma hegemonia se mantém quando sua base material entra em colapso. O tigre pode até ser de papel, mas as lições da história nos ensinam que são as contradições materiais e a organização coletiva que transformam a realidade.
A chamada “Ópera da Nova Ordem Mundial” não representa uma tragédia para os EUA, tampouco para a humanidade, mas é uma crônica diante das contradições, crise e decadência estrutural do imperialismo cada vez mais aguda. A crise imperialista, a ascensão dos BRICS e o acirramento da luta de classes global estão reconfigurando a arquitetura da ordem mundial e o multilateralismo avançam rapidamente, e a realidade histórica aponta para a reorganização das principais forças políticas interessadas na retomada da luta pelo socialismo.

