Da partilha da África ao futebol global: o colonialismo que ainda marca as relações entre Europa e África

A exploração colonial construiu a riqueza europeia, moldou as desigualdades contemporâneas e continua revelando suas contradições até mesmo nos gramados do futebol mundial.

Por Francisco José de Oliveira 

Poucos processos históricos ajudam tanto a explicar as desigualdades do mundo atual quanto o colonialismo europeu na África. Durante mais de cinco séculos o continente africano foi submetido ao tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, à ocupação de territórios, ao saque sistemático de suas riquezas e à destruição de inúmeras estruturas políticas, econômicas e culturais. Como mostra o historiador Walter Rodney em How Europe Underdeveloped Africa, o subdesenvolvimento africano não nasceu de uma suposta incapacidade interna, mas de um longo processo de exploração que alimentou a ascensão econômica das potências europeias.

O momento mais simbólico desse processo ocorreu entre 1884 e 1885, durante a Conferência de Berlim, quando as principais potências imperialistas decidiram dividir praticamente todo o continente africano entre si. Convocada pelo chanceler Otto von Bismarck, a conferência reuniu representantes europeus sem a presença de qualquer povo africano. Fronteiras foram traçadas em mapas de acordo com interesses geopolíticos, ignorando identidades étnicas, linguísticas e culturais. Essa partilha consolidou aquilo que o líder ganês Kwame Nkrumah mais tarde identificaria, em Neo-Colonialism: The Last Stage of Imperialism, como a origem de uma dependência estrutural que sobreviveria mesmo após as independências formais.

Em 1914, cerca de 90% da África já estava sob domínio colonial. O Reino Unido controlava Egito, Sudão, Quênia, Uganda, Nigéria e África do Sul. A França consolidou um vasto império colonial na África Ocidental e Central. Portugal manteve Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Alemanha, Bélgica, Itália e Espanha também estabeleceram extensos domínios coloniais. Em todos os casos, a lógica era a mesma: organizar os territórios para garantir a exportação de matérias-primas destinadas à industrialização europeia.

Entre todos os regimes coloniais poucos simbolizam tanta brutalidade quanto o Estado Livre do Congo, transformado em propriedade privada do rei Leopoldo II. Sob a justificativa de uma missão civilizatória foi implantado um sistema baseado no trabalho forçado, na mutilação, na tortura e no assassinato em massa para ampliar a produção de borracha. O historiador Adam Hochschild, em King Leopold’s Ghost, documenta que entre cinco e dez milhões de congoleses morreram nesse período, fazendo do Congo um dos maiores símbolos da violência colonial moderna.

O colonialismo nunca teve como objetivo promover o desenvolvimento africano. Sua finalidade era integrar o continente de forma subordinada ao capitalismo industrial europeu. Ouro, diamantes, cobre, petróleo, cacau, algodão, marfim e borracha abasteceram a expansão econômica das metrópoles, enquanto as populações africanas permaneciam excluídas dos benefícios gerados por suas próprias riquezas. Essa dinâmica corresponde ao que Vladimir Ilyich Lenin definiu, em Imperialism: The Highest Stage of Capitalism, como a fase imperialista do capitalismo, marcada pela expansão territorial e pela exportação de capital em busca de recursos naturais e novos mercados.

As independências conquistadas, principalmente entre as décadas de 1950 e 1970, representaram vitórias políticas importantes dos movimentos de libertação nacional. No entanto, como advertiu Frantz Fanon em The Wretched of the Earth, a libertação política só se completa quando vem acompanhada da emancipação econômica, cultural e psicológica dos povos anteriormente colonizados. Em muitos casos, as antigas relações coloniais apenas assumiram novas formas de dependência financeira, tecnológica e comercial.

Essa herança ajuda a entender por que milhares de africanos continuam atravessando o Deserto do Saara e arriscando a vida no Mar Mediterrâneo em busca de trabalho, segurança e dignidade. Muitos encontram fronteiras militarizadas, políticas migratórias restritivas e discursos xenófobos justamente nos países que acumularam parte significativa de sua riqueza por meio da exploração colonial.

É nesse contexto que o futebol revela uma das maiores contradições da globalização contemporânea.

Quando um jovem africano busca oportunidades de trabalho ou proteção humanitária frequentemente encontra barreiras legais e preconceito social, mas quando demonstra talento excepcional para o esporte passa rapidamente a ser valorizado pelo mercado internacional do futebol. Diversas seleções europeias contam com atletas de origem africana ou descendentes de famílias migrantes, protagonistas nos maiores clubes do mundo e responsáveis por movimentar uma indústria bilionária.

Portanto, a crítica não se dirige aos jogadores, mas às estruturas de poder que continuam atribuindo valores diferentes à circulação das pessoas. O intelectual Edward W. Said demonstrou, em Orientalism, que o Ocidente historicamente construiu representações hierarquizadas sobre os povos não europeus para justificar relações de dominação. Essa lógica permanece presente quando migrantes são tratados como ameaça, enquanto atletas altamente rentáveis são celebrados como símbolos nacionais.

A experiência histórica africana também dialoga com a interpretação do historiador C. L. R. James em The Black Jacobins ao mostrar que os povos colonizados nunca foram sujeitos passivos da história. Eles resistiram por meio de revoltas, movimentos de libertação e projetos políticos voltados à conquista da soberania nacional.

O futebol vai muito além do espetáculo esportivo. Ele revela que o colonialismo continua presente nas assimetrias econômicas, nas políticas migratórias, nas relações comerciais e nas formas contemporâneas de poder. Compreender essa trajetória histórica não significa responsabilizar indivíduos pelas ações de seus antepassados, mas reconhecer que a prosperidade de parte da Europa foi construída, em larga medida, pela exploração colonial da África.

A construção de uma ordem internacional mais justa exige reconhecer essa dívida histórica, fortalecer a cooperação entre os povos, combater o racismo estrutural e defender um modelo de desenvolvimento baseado na soberania, na igualdade e na autodeterminação das nações.

Em síntese, o futebol apenas torna visível uma realidade histórica muito mais profunda: as estruturas do colonialismo não desapareceram, se transformaram. Reconhecer essa permanência é condição indispensável para construir relações internacionais mais democráticas, solidárias e comprometidas com a justiça histórica.

Referências

FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

HOCHSCHILD, Adam. O Fantasma do Rei Leopoldo: uma história de ganância, terror e heroísmo na África Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

JAMES, C. L. R. Os Jacobinos Negros: Toussaint L’Ouverture e a Revolução de São Domingos. São Paulo: Boitempo, 2000.

LENIN, Vladimir Ilyich. Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2021.

NKRUMAH, Kwame. Neocolonialismo: último estágio do imperialismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

RODNEY, Walter. Como a Europa Subdesenvolveu a África. Lisboa: Orfeu Negro, 2022.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

  • Discourse on Colonialism.
  • The Colonizer and the Colonized.