O Brasil não é quintal de ninguém: a nova ofensiva geopolítica dos Estados Unidos sobre a América Latina

Ao apontar o Brasil como o “próximo grande teste” da onda conservadora, setores políticos dos Estados Unidos evidenciam que a disputa pelo futuro da América Latina continua marcada pelo confronto entre projetos de hegemonia e a luta dos povos pela soberania e autodeterminação.

Por Francisco José de Oliveira 

O recente compartilhamento, pelo presidente norte-americano Donald Trump, de um artigo que classifica o Brasil como o “próximo grande teste” da onda conservadora na América Latina exige uma reflexão que ultrapassa a conjuntura eleitoral brasileira. O episódio evidencia de forma explícita que determinados setores políticos dos Estados Unidos continuam a enxergar a América Latina como uma região estratégica sobre a qual buscam exercer influência política, econômica e ideológica.

O texto divulgado por Trump celebra o avanço de governos conservadores no continente e apresenta o Brasil como peça central para uma reconfiguração do mapa político latino-americano. Em outras palavras, a próxima eleição presidencial brasileira passa a ser tratada não apenas como uma decisão soberana do povo brasileiro, mas como elemento relevante de um projeto político continental alinhado aos interesses do trumpismo.

Essa postura está longe de ser nova. Ela dialoga com uma longa tradição da política externa norte-americana, historicamente marcada pela tentativa de consolidação de sua influência sobre a América Latina. Como demonstra o historiador e cientista político Moniz Bandeira, a presença dos Estados Unidos na região constituiu um dos pilares de sua estratégia de projeção de poder ao longo dos séculos XIX e XX. Desde a Doutrina Monroe, formulada em 1823, diferentes governos norte-americanos passaram a considerar a América Latina como área prioritária de seus interesses estratégicos.

Ao longo dos séculos XIX, XX e XXI, essa lógica serviu de base para intervenções diretas e indiretas, pressões diplomáticas, bloqueios econômicos e apoio a governos alinhados aos interesses de Washington. Embora os métodos tenham se transformado, o objetivo de preservar influência sobre a região permaneceu presente em diferentes ciclos históricos.

O que chama atenção, no entanto, é a forma aberta com que setores da direita norte-americana passaram a tratar o futuro político do Brasil. Ao definir o país como o “próximo grande teste”, o artigo compartilhado por Trump sugere que a disputa eleitoral brasileira possui relevância não apenas doméstica, mas também geopolítica, no âmbito de um projeto de expansão de influência conservadora no continente.

Não se trata aqui de defender governos, partidos ou lideranças específicas. Trata-se da defesa de um princípio fundamental das relações internacionais: a soberania nacional. Em uma democracia, cabe exclusivamente ao povo decidir os rumos do país por meio do voto. Nenhuma potência estrangeira possui legitimidade para tratar o processo político brasileiro como instrumento de sua estratégia de poder.

O Brasil ocupa posição singular no cenário internacional. Além de ser a maior economia da América Latina, possui vastos recursos naturais, capacidade produtiva expressiva, relevância energética e crescente protagonismo nos fóruns multilaterais. Como integrante dos BRICS e defensor de uma ordem internacional mais multipolar, o país desempenha papel estratégico nas discussões sobre desenvolvimento, comércio internacional e governança global.

Por essa razão, as disputas políticas brasileiras despertam interesse além de suas fronteiras. Contudo, há uma diferença essencial entre observar processos internos e tentar influenciar seus desfechos. Quando lideranças estrangeiras tratam eleições nacionais como parte de seus projetos ideológicos, torna-se legítimo questionar os interesses estruturais envolvidos.

Na minha avaliação, o principal desafio da América Latina no século XXI não é escolher entre projetos políticos formulados em Washington, Pequim, Moscou ou qualquer outro centro de poder global. O desafio consiste em construir autonomia estratégica, fortalecer a integração regional e assegurar que as decisões fundamentais sobre o futuro das nações latino-americanas sejam tomadas pelos próprios povos da região. Nesse sentido, o sociólogo argentino Atilio Boron argumenta que a soberania regional depende da capacidade dos países latino-americanos de formularem projetos próprios de desenvolvimento, cooperação e inserção internacional.

A história demonstra que os períodos de maior dependência externa raramente resultaram em desenvolvimento sustentável ou soberania efetiva. Essa interpretação é reforçada pela Teoria da Dependência, desenvolvida por autores como Theotonio dos Santos e Ruy Mauro Marini, que analisaram as estruturas de subordinação econômica e política que vinculam as economias periféricas aos grandes centros do capitalismo global.

Da mesma forma, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em As Veias Abertas da América Latina, evidenciou como a exploração histórica dos recursos naturais da região contribuiu para a manutenção de relações profundamente assimétricas no sistema internacional.

No caso brasileiro, a construção de um projeto soberano de desenvolvimento permanece como desafio estrutural. Como defendia o economista Celso Furtado, o desenvolvimento não se resume ao crescimento econômico, mas envolve a superação das estruturas históricas de dependência que limitam a autonomia nacional.

Por isso, mais importante do que aderir a qualquer projeto geopolítico externo é fortalecer a capacidade dos países latino-americanos de definir seus próprios caminhos. A democracia, a soberania popular e a autodeterminação dos povos devem permanecer como princípios inegociáveis.

O Brasil não é um laboratório político de interesses externos. Tampouco deve ser tratado como peça de um tabuleiro geopolítico desenhado fora de suas fronteiras. O Brasil é uma nação soberana e seu futuro pertence, exclusivamente, ao povo brasileiro.

Referências

BANDEIRA, Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil: Dois Séculos de História.

BORON, Atilio. América Latina na Geopolítica do Imperialismo.

DOS SANTOS, Theotonio. Imperialismo e Dependência.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência.

GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil.

Artigo publicado pelo Newsmax e repercutido pela imprensa brasileira.

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Blog: No Alvo com Chico Zé

Linha editorial: análise crítica de geopolítica, soberania e disputas de poder no sistema internacional