O maior jogo entre Brasil e Noruega não foi decidido pelo futebol. O placar mais importante está na forma como cada país administra suas riquezas e constrói o seu futuro.
Por Francisco José de Oliveira
A derrota da Seleção Brasileira para a Noruega na Copa do Mundo ocupou os noticiários esportivos, gerou críticas e frustrou milhões de brasileiros. Isso faz parte do futebol. O que me chamou a atenção, porém, foi o fato de que quase ninguém percebeu que a maior diferença entre Brasil e Noruega não apareceu no placar. Ela está na maneira como cada país enxerga suas riquezas e planeja o seu futuro.
Enquanto nós muitas vezes permanecemos presos às urgências do presente, a Noruega construiu um projeto de Estado concebido para beneficiar não apenas a geração atual, mas também aquelas que ainda estão por vir. Essa é a principal lição que esse pequeno país oferece ao Brasil.
Quando descobriu petróleo no Mar do Norte, no final da década de 1960, a Noruega fez uma escolha que mudaria sua história. Em vez de consumir rapidamente a riqueza gerada pelo petróleo, decidiu tratá-la como patrimônio nacional.
Na década de 1990, criou um fundo soberano que, atualmente, administra um patrimônio superior a dois trilhões de dólares. Esses recursos são investidos em milhares de empresas ao redor do mundo e apenas uma parcela dos rendimentos é utilizada pelo governo. O capital principal permanece preservado, garantindo estabilidade econômica, financiando políticas públicas e assegurando qualidade de vida às futuras gerações.
Existe uma informação amplamente difundida nas redes sociais segundo a qual “cada norueguês tem milhões de reais guardados pelo governo”. A frase chama a atenção, mas não traduz com precisão a realidade. O fundo soberano não pertence individualmente aos cidadãos, como se cada um possuísse uma conta bancária. Trata-se de um patrimônio público administrado pelo Estado em benefício de toda a sociedade. A grande lição da Noruega não está apenas na dimensão desse patrimônio, mas na decisão política de transformar uma riqueza finita em um instrumento permanente de desenvolvimento.
É exatamente aí que começa a diferença entre um país que apenas administra recursos naturais e outro que constrói um verdadeiro projeto nacional.
Sempre que reflito sobre esse tema lembro-me de Celso Furtado. Um dos maiores intelectuais brasileiros demonstrou que o subdesenvolvimento não é uma fatalidade histórica nem consequência da escassez de riquezas. Ele resulta de escolhas políticas, da forma como a economia é organizada e do lugar que um país ocupa na divisão internacional do trabalho.
O Brasil conhece bem essa realidade.
Somos uma potência em recursos naturais. Dispomos de petróleo, minerais estratégicos, abundância de água doce, uma biodiversidade sem igual, um setor agropecuário altamente competitivo e condições privilegiadas para liderar a transição energética mundial. Mesmo assim continuamos convivendo com profundas desigualdades sociais, baixa agregação de valor à nossa produção, dependência tecnológica e um processo de desindustrialização que compromete nossa capacidade de competir internacionalmente.
Isso demonstra que o nosso problema nunca foi a falta de riquezas. O problema está na forma como escolhemos administrá-las.
O Brasil também procurou seguir um caminho semelhante ao criar o Fundo Social do Pré-Sal. A proposta era correta: utilizar parte da renda do petróleo para financiar educação, ciência, tecnologia, saúde e desenvolvimento social. Entretanto, mudanças na orientação das políticas públicas, alterações legislativas e a ausência de continuidade administrativa impediram que esse instrumento alcançasse o potencial originalmente concebido.
Na minha avaliação essa diferença revela um aspecto essencial. O que distingue Brasil e Noruega não é a existência de petróleo, é a capacidade de transformar políticas de governo em políticas de Estado.
Ao longo de décadas exportamos petróleo, minério de ferro e produtos agropecuários, enquanto importamos tecnologia, equipamentos de alta complexidade e inovação. Em outras palavras continuamos exportando riqueza natural e importando desenvolvimento. Enquanto isso, países que planejam estrategicamente utilizam seus recursos para fortalecer universidades, financiar pesquisas científicas, estimular a inovação, modernizar a indústria e ampliar sua competitividade. Esse é o caminho seguido pela Noruega.
Também foi esse o caminho percorrido, em diferentes momentos históricos, por países como Coreia do Sul, China e, em muitos aspectos, pelos próprios Estados Unidos.
Por isso, não vejo qualquer problema no fato de empresas norueguesas investirem no Brasil. Ao contrário, elas fazem exatamente aquilo que um Estado comprometido com seus interesses nacionais deve fazer, utilizar a riqueza acumulada para construir novas fontes de renda e ampliar sua presença na economia internacional.
A pergunta que precisamos fazer é por que o Brasil ainda encontra tantas dificuldades para fazer o mesmo?
Entendo que é porque ainda pensamos excessivamente no próximo mandato e insuficientemente nas próximas gerações. Nenhum país alcançou elevado grau de desenvolvimento abrindo mão do planejamento, da ciência, da tecnologia, da educação pública de qualidade e de uma política industrial consistente. O mercado desempenha um papel importante na economia, mas a história demonstra que ele jamais construiu, sozinho, as grandes economias do mundo.
O futebol, curiosamente, ajuda a compreender essa realidade. Durante décadas, confiamos quase exclusivamente no talento individual. O futebol moderno demonstrou que o talento continua sendo importante, mas organização, formação de base, investimento em ciência, gestão e planejamento fazem toda a diferença. Com as nações ocorre exatamente o mesmo.
O Brasil não precisa copiar a Noruega. Nossa realidade é distinta, nossa população é muito maior e nossos desafios são infinitamente mais complexos. Contudo, podemos aprender uma lição fundamental: nenhuma riqueza natural produz desenvolvimento por si só. Ela precisa estar associada a planejamento, instituições sólidas, continuidade das políticas públicas e compromisso permanente com o interesse nacional.
Acredito que o Brasil reúne todas as condições para ocupar uma posição de liderança no século XXI. Poucos países possuem tantos recursos naturais, universidades de excelência, capacidade científica e um povo tão criativo quanto o nosso.
O que ainda nos falta é um projeto nacional capaz de transformar esse imenso potencial em prosperidade compartilhada. Essa é a verdadeira partida que o Brasil precisa vencer. Uma Copa do Mundo termina em poucas semanas, um projeto nacional pode transformar o destino de uma nação por gerações.
No Alvo com Chico Zé — Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia e do desenvolvimento do Brasil.
Referências
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Em busca do desenvolvimento perdido. Rio de Janeiro: FGV, 2018.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada. São Paulo: UNESP, 2004.
SACHS, Ignacy. Caminhos para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: Garamond, 2008.
Banco Central da Noruega. Government Pension Fund Global.
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

