Entre o racismo e a memória colonial: a copa do mundo e as contradições do mundo contemporâneo

Uma análise crítica sobre colonialidade, racismo estrutural e os conflitos de narrativa presentes no futebol e na sociedade contemporânea.

Por Francisco José de Oliveira (Chico Zé)

O futebol nunca foi apenas futebol

A Copa do Mundo é muito mais do que uma competição esportiva. Ela é um fenômeno cultural que mobiliza paixões, identidades, símbolos nacionais e narrativas sobre o mundo. Dentro e fora dos estádios, o futebol também revela disputas históricas, relações de poder e diferentes formas de interpretar a realidade.

Em 2026 a pergunta sobre quem merece conquistar o título mundial ultrapassou o debate esportivo e passou a envolver questões éticas, históricas e políticas.

Nas redes sociais ganhou força o argumento de que a Argentina não mereceria ser campeã em razão dos episódios de racismo protagonizados por parte de sua torcida e, em determinadas situações, por integrantes do futebol argentino.

A crítica é necessária. O racismo é uma das formas mais perversas de violência contra a dignidade humana e precisa ser combatido sempre, independentemente de quem pratica, de onde acontece ou de qual bandeira está representada. Não existe justificativa para o racismo.

Mas essa discussão também nos apresenta uma questão histórica: se uma nação deve ser julgada por sua trajetória moral para conquistar uma Copa do Mundo, quem estaria autorizado a ocupar esse lugar de julgamento?

Racismo e colonialidade: as marcas de uma história desigual

A história da modernidade não pode ser compreendida sem analisar o papel desempenhado pelos impérios coloniais europeus.

Durante séculos países como Espanha, Inglaterra e França construíram parte de sua influência mundial a partir da expansão territorial, da exploração econômica, da escravidão, da dominação de povos originários e da apropriação de riquezas de diferentes regiões do planeta.

A colonização não foi apenas um processo de ocupação territorial. Ela também construiu uma visão de mundo baseada em hierarquias entre povos e culturas, criando justificativas ideológicas para a exploração e para a desigualdade.

O racismo moderno não surgiu apenas de atitudes individuais de preconceito. Ele foi utilizado historicamente como instrumento de poder para legitimar a escravidão, a dominação colonial e a exploração econômica.

O sociólogo peruano Aníbal Quijano definiu esse fenômeno como colonialidade do poder, uma estrutura que permanece mesmo após o fim formal dos impérios coloniais e continua influenciando as relações econômicas, políticas e culturais do mundo atual.

Autores como Frantz FanonAchille Mbembe e outros pensadores críticos demonstraram que as desigualdades contemporâneas possuem raízes profundas em processos históricos que ainda não foram totalmente superados.

Reconhecer essa realidade não significa responsabilizar pessoas pelos crimes cometidos em outros períodos históricos. Também não é negar avanços democráticos ou conquistas sociais construídas pelas próprias sociedades europeias. Significa compreender que a história precisa ser analisada em sua totalidade.

A memória histórica não pode ser seletiva

O combate ao racismo exige coerência. Não há sentido em condenar manifestações racistas quando elas acontecem em determinados países e ignorar as estruturas históricas que contribuíram para a construção do racismo como fenômeno global.

A memória histórica muitas vezes é seletiva. As contradições dos países periféricos costumam receber enorme visibilidade enquanto os impactos do colonialismo europeu frequentemente são apresentados como acontecimentos distantes e superados.

Mas a história não desaparece porque passou o tempo. As desigualdades econômicas, sociais e políticas existentes no mundo contemporâneo carregam marcas desse passado.

Por isso, discutir racismo também significa discutir poder, memória e a forma como as sociedades escolhem contar sua própria história.

Quando o futebol encontra a política internacional

Essa reflexão também alcança as instituições internacionais. Durante a Copa do Mundo de 2026 a decisão da FIFA de suspender os efeitos da punição automática aplicada ao atacante norte-americano Folarin Balogun, permitindo sua participação nas oitavas de final contra a Bélgica, gerou questionamentos e repercussão internacional.

A FIFA informou que a medida foi tomada com base no artigo 27 de seu Código Disciplinar, que permite a suspensão da execução de determinadas sanções em circunstâncias específicas. Entretanto, a decisão provocou debate devido à sua excepcionalidade e à ausência de uma explicação pública mais detalhada.

A repercussão aumentou após a manifestação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que agradeceu publicamente à FIFA pela decisão, afirmando que a entidade havia “revertido uma grande injustiça”.

Independentemente de qualquer comprovação de interferência direta na decisão, o episódio trouxe a reflexão importante de que instituições internacionais precisam não apenas seguir regras, mas demonstrar claramente que essas regras são aplicadas de forma igual para todos.

A credibilidade de uma instituição depende da confiança de que não existem privilégios relacionados ao poder político, econômico ou diplomático de determinados países.

O futebol como expressão do mundo real

É por isso que o futebol ultrapassa o esporte. Para milhões de pessoas da América Latina, da África e da Ásia, uma vitória de uma seleção do Sul Global possui um significado simbólico que vai além do resultado em campo.

Ela representa a afirmação de povos que historicamente foram colocados em posições subordinadas dentro da ordem internacional.

Isso não significa afirmar que qualquer país do Sul Global seja moralmente superior ou esteja livre de problemas internos. Nenhuma sociedade está acima da crítica.

O que está em debate é algo maior, é a necessidade de compreender que a história mundial foi construída por relações desiguais de poder e que essas marcas ainda influenciam o presente.

Conclusão

Talvez a pergunta mais importante não seja quem merece ganhar a Copa do Mundo? Talvez a pergunta mais profunda seja quem pode reivindicar superioridade moral quando a própria modernidade foi construída sobre processos de colonização, escravidão, exploração econômica e desigualdade entre povos?

A resposta passa pela compreensão de que nenhuma sociedade possui monopólio da virtude. O racismo deve ser combatido em todos os lugares, a colonialidade precisa ser compreendida em suas consequências históricas e as instituições internacionais precisam ser permanentemente cobradas por transparência, igualdade e justiça.

A maior vitória da humanidade não será conquistada dentro de um estádio. Acontecerá quando a igualdade racial deixar de ser apenas uma bandeira política e se transformar em realidade, quando a memória histórica deixar de ser seletiva e quando a dignidade humana estiver acima das diferenças de origem, nacionalidade ou poder.

Enquanto esse desafio permanecer a Copa do Mundo continuará sendo muito mais do que futebol. Ela continuará sendo um espelho da humanidade, revelando nossas conquistas, nossas contradições e a luta permanente por um mundo mais justo.

No Alvo com Chico Zé — Informação, análise de geopolítica e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia e do desenvolvimento do Brasil.

Referências 

  • FANON, Frantz. Os Condenados da Terra.
  • QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina.
  • MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra.
  • MIGNOLO, Walter D. Desobediência Epistêmica.
  • SAID, Edward W. Orientalismo.
  • WILLIAMS, Eric. Capitalismo e Escravidão.
  • ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes.