A escalada do conflito revela as disputas pela hegemonia mundial e reforça a urgência da diplomacia para impedir que a humanidade caminhe rumo a uma guerra de proporções globais.
Por Francisco José de Oliveira
As recentes tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã exigem uma reflexão que vá além das manchetes. Quando observamos esse conflito apenas pelo prisma militar corremos o risco de ignorar as disputas econômicas, políticas e geoestratégicas que, há décadas, moldam o Oriente Médio e influenciam os rumos da ordem internacional.
A versão apresentada pelos governos dos Estados Unidos e de Israel sustenta que a ofensiva busca garantir a segurança de Israel e impedir o avanço do programa nuclear iraniano. Esse argumento integra a narrativa oficial, porém, a realidade é mais complexa. O Irã ocupa uma posição estratégica em uma região que concentra importantes reservas de petróleo e gás natural e abriga rotas fundamentais para o abastecimento energético mundial. Além disso, o fortalecimento de suas relações com China e Rússia o transforma em um ator relevante na reorganização do equilíbrio de poder global.
É justamente essa transformação que torna o cenário tão delicado.
O mundo vive um período de transição, no qual a hegemonia dos Estados Unidos passa a ser contestada por novas potências econômicas e militares. Historicamente, momentos como esse são marcados por disputas intensas, crises internacionais e instabilidade geopolítica.
Na minha avaliação, a política externa intervencionista dos Estados Unidos, frequentemente apoiada por seus aliados estratégicos, tem contribuído para ampliar focos de tensão em diferentes regiões do mundo. Essa análise não atribui toda a responsabilidade pelo conflito a um único país nem ignora as ações dos demais atores envolvidos. Contudo, é preciso reconhecer que as decisões tomadas pela maior potência militar do planeta possuem enorme capacidade de influenciar os rumos da paz e da guerra.
O aspecto mais preocupante dessa escalada é o risco de que ela ultrapasse as fronteiras do Oriente Médio. Não é possível afirmar que uma Terceira Guerra Mundial seja inevitável. No entanto, seria igualmente irresponsável ignorar que o aumento das hostilidades entre potências, aliado à existência de arsenais nucleares, eleva significativamente o risco de um conflito de proporções inéditas.
A história demonstra que as grandes guerras nem sempre começam de forma planejada. Muitas vezes, elas resultam de sucessivas escaladas militares, erros de cálculo e fracassos diplomáticos. Vivemos na era das armas nucleares. Um confronto direto entre grandes potências não produziria apenas vencedores e derrotados, colocaria em risco milhões de vidas, comprometeria a economia mundial, agravaria crises humanitárias e ambientais e poderia ameaçar o futuro da própria civilização.
Enquanto governos ampliam seus gastos militares e exibem seu poder bélico, são os povos que suportam as consequências. Trabalhadores, crianças, idosos e famílias inteiras tornam-se vítimas da destruição, do deslocamento forçado, da fome e da perda de perspectivas. Em contrapartida, a indústria armamentista e os setores ligados ao complexo militar-industrial continuam acumulando lucros em meio ao caos.
O Brasil também sente os reflexos desse cenário. A instabilidade internacional afeta os preços do petróleo, pressiona a inflação, encarece combustíveis, alimentos e transportes e agrava as dificuldades econômicas enfrentadas por milhões de brasileiros. Em um mundo globalizado e interdependente, nenhuma guerra permanece restrita ao território onde se inicia.
Como cientista social compreendo que defender a paz não significa adotar uma postura passiva diante das injustiças ou das violações do Direito Internacional. Defender a paz significa fortalecer a diplomacia, incentivar o diálogo entre as nações, respeitar a soberania dos povos e reafirmar o papel das instituições multilaterais na prevenção e na resolução dos conflitos.
A humanidade não pode ser transformada em refém de um perigoso espetáculo de demonstração de força, no qual o poder militar e a ameaça nuclear se tornam instrumentos permanentes da política internacional. Nenhum projeto de hegemonia, seja qual for a potência que o conduza, pode justificar a possibilidade de um conflito capaz de colocar em risco o futuro das próximas gerações.
Defender a paz entre todos os povos não é uma utopia, é uma necessidade histórica. Em um mundo marcado por desigualdades, crises ambientais e ameaças nucleares, a cooperação internacional deve prevalecer sobre a lógica da guerra. Afinal, quando as bombas caem não são os governantes que morrem primeiro. São os povos que pagam o preço por toda a destruição de um conflito dessa magnitude.
Mais do que uma posição política, a defesa da paz constitui um compromisso ético com a vida, a dignidade humana e o futuro da civilização. Em tempos de crescente polarização internacional e de disputas pela hegemonia global, a diplomacia, o respeito ao Direito Internacional e a cooperação entre os povos permanecem como os únicos caminhos capazes de impedir que a humanidade seja conduzida a uma tragédia de proporções incalculáveis.
No Alvo com Chico Zé — Informação, análise de geopolítica e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia e do desenvolvimento do Brasil.
Referências
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