Em meio à disputa geopolítica entre as grandes potências, o fortalecimento dos BRICS e das relações do Sul Global emerge como uma estratégia fundamental para ampliar a soberania econômica, diversificar parcerias internacionais e consolidar o protagonismo do Brasil na construção de uma ordem mundial multipolar.
Por Francisco José de Oliveira
Há momentos na história em que o mundo muda de direção. Avalio que estamos vivendo um desses momentos. As tensões comerciais entre os Estados Unidos e outras grandes economias não representam apenas uma disputa por mercados ou tarifas. Elas revelam um conflito mais profundo: a disputa por influência sobre os rumos da economia mundial nas próximas décadas.
Nesse contexto, considero acertada a estratégia do governo brasileiro de fortalecer as relações com os países do Sul Global e ampliar sua participação nos BRICS. O Brasil é uma nação de dimensões continentais, detentora de imensas riquezas naturais, de uma capacidade produtiva diversificada e de grande relevância geopolítica. Por isso, não pode limitar seu futuro aos interesses de um único centro de poder.
A história demonstra que as grandes potências sempre utilizaram instrumentos econômicos para preservar suas posições de influência. Quando os Estados Unidos recorrem a tarifas e barreiras comerciais para defender seus interesses estratégicos, deixam claro que a economia continua sendo uma ferramenta de poder político. Não há novidade nisso. O que muda é a reação dos demais países.
Cada vez mais nações percebem que a dependência excessiva de um único mercado, de uma única moeda ou de um único sistema financeiro internacional pode gerar vulnerabilidades. É justamente essa percepção que impulsiona a aproximação entre países emergentes e fortalece iniciativas de cooperação econômica, tecnológica e financeira fora dos tradicionais eixos de poder.
Nesse cenário, a parceria entre Brasil e China ganha importância estratégica. Não se trata apenas de exportar mais soja, minério ou carne. Trata-se de construir relações de longo prazo que contribuam para ampliar investimentos, desenvolver infraestrutura, estimular a inovação tecnológica e fortalecer a capacidade de crescimento dos países envolvidos.
Defendo que o Brasil mantenha uma política externa soberana, baseada no multilateralismo e na diversificação de suas parcerias internacionais. Isso não significa romper relações com os Estados Unidos ou com a Europa. Significa, simplesmente, agir de acordo com os interesses nacionais, preservando a autonomia necessária para dialogar com todos os atores relevantes do sistema internacional.
O fortalecimento dos BRICS e do Sul Global não representa uma ameaça à ordem mundial. Pelo contrário, pode contribuir para a construção de um ambiente internacional mais equilibrado, no qual os países em desenvolvimento tenham maior participação nas decisões que afetam suas economias e suas populações.
O século XXI está testemunhando o avanço de uma ordem multipolar. As mudanças ainda estão em curso e seus resultados permanecem incertos. Contudo, uma coisa parece evidente: o Brasil terá mais oportunidades de desenvolvimento e maior capacidade de defender seus interesses se atuar como protagonista desse processo, e não como mero espectador.
A defesa da soberania nacional, da autonomia econômica e da cooperação entre os países do Sul Global não é uma questão ideológica, mas estratégica. Em um mundo cada vez mais complexo e competitivo, fortalecer parcerias, diversificar relações e ampliar espaços próprios de decisão é o caminho mais seguro para garantir desenvolvimento, estabilidade e protagonismo internacional.
Mais do que acompanhar as transformações em curso, o Brasil precisa posicionar-se de forma ativa na construção da nova ordem internacional. Em um cenário marcado pela ascensão de novas potências e pela reconfiguração dos centros de poder, a defesa da autonomia nacional e o fortalecimento da cooperação entre os países do Sul Global constituem instrumentos fundamentais para assegurar um desenvolvimento soberano e sustentável.
Referências
FIORI, José Luís. História, Estratégia e Desenvolvimento. São Paulo: Boitempo, 2014.
SANTOS, Milton. Por uma Outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000.
VISENTINI, Paulo Fagundes. A Ascensão da China e a Nova Configuração do Sistema Internacional. Porto Alegre: UFRGS, 2011.
BRICS. Declarações oficiais das Cúpulas dos BRICS.
WORLD BANK. Indicadores de Desenvolvimento Mundial.
WTO. Relatórios de Estatísticas e Perspectivas do Comércio Mundial.

