OS RISCOS QUE CORREMOS COM O BOLSONARISMO: VENCEMOS A BARBÁRIE, MAS A DEMOCRACIA EXIGE VIGILÂNCIA

Uma análise histórica e política das raízes do autoritarismo, da influência fascista no bolsonarismo e dos desafios para preservar a democracia, os direitos sociais e a soberania nacional no Brasil.

Francisco José de Oliveira – Cientista Social

A democracia venceu nas urnas, mas a luta não terminou

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026, representou uma importante vitória política para os brasileiros que defendem os direitos sociais, a participação popular e a soberania nacional.

Entretanto, a derrota eleitoral do bolsonarismo não elimina as ideias autoritárias, o preconceito e a intolerância que continuam presentes na sociedade. Compreender suas raízes históricas e sociais é essencial para enfrentar essas ameaças e impedir novos retrocessos.

Nicos Poulantzas e as raízes do fascismo

Para compreender os riscos representados por movimentos autoritários é necessário olhar para a história e identificar as condições que favorecem seu crescimento.

Em Fascisme et dictature: la IIIe Internationale face au fascisme, publicada em 1970, Nicos Poulantzas analisa o fascismo a partir das relações entre Estado, classes sociais, crises políticas e disputas pelo poder. Tal contribuição ajuda a compreender que esse fenômeno não resulta apenas da vontade de um líder ou da adesão a discursos extremistas. Sua ascensão depende de condições históricas e da articulação de forças políticas e sociais interessadas na transformação das estruturas de poder.

Essa interpretação permite perceber que o autoritarismo não se sustenta somente pela ação de quem governa, depende também de interesses econômicos, organizações políticas e setores sociais que passam a aceitar a restrição de direitos e a violência contra determinados grupos.

A análise de Poulantzas oferece um critério importante, o de que o fascismo deve ser compreendido em suas condições históricas concretas. Nem todo movimento autoritário pode ser classificado como fascista. É preciso examinar suas características, suas bases sociais e suas práticas políticas, evitando comparações superficiais.

Itália fascista e Alemanha nazista: a história que não podemos esquecer

A Itália de Benito Mussolini e a Alemanha de Adolf Hitler são referências históricas fundamentais para compreender a ascensão de regimes fascistas e suas consequências.

Na Itália, Mussolini chegou ao governo em outubro de 1922, após a Marcha sobre Roma. A ditadura foi consolidada gradualmente, sobretudo entre 1925 e 1926, com a repressão aos adversários políticos, a restrição das liberdades e a concentração do poder.

Na Alemanha, Hitler foi nomeado chanceler em janeiro de 1933. O regime nazista rapidamente desmontou as instituições democráticas e implantou uma política de perseguição baseada no racismo e no antissemitismo. Essa ideologia conduziu ao Holocausto, responsável pelo assassinato de milhões de pessoas.

A Itália fascista também adotou leis raciais antissemitas em 1938. Entretanto, é necessário reconhecer as diferenças entre os dois regimes, especialmente a centralidade e a dimensão do projeto de extermínio nazista.

Essas experiências mostram que a concentração do poder, a perseguição política e a desumanização de grupos sociais podem avançar gradualmente até comprometer profundamente a vida de uma sociedade.

Quando a própria sociedade participa da repressão: a experiência da Gestapo

Um dos aspectos mais inquietantes da Alemanha nazista foi a participação de pessoas comuns na perseguição aos próprios vizinhos, colegas e conhecidos.

A Gestapo, polícia política do regime, utilizava investigações, informantes e denúncias feitas por cidadãos para identificar judeus, opositores políticos e pessoas que ajudavam perseguidos. Essas denúncias contribuíam para ampliar o alcance da repressão.

Isso não significa que a Gestapo controlasse cada cidadão ou dependesse exclusivamente das denúncias populares. A polícia também realizava investigações próprias e atuava em articulação com outras instituições do Estado nazista. Além disso, a sociedade alemã não era homogênea e houve adesão, colaboração, acomodação, resistência e oposição ao regime.

O episódio revela como a repressão pode ganhar força quando encontra colaboração em parcelas da sociedade. A intolerância deixa de ser apenas discurso quando pessoas passam a participar da perseguição de outras por suas origens, ideias ou posições políticas.

Essa experiência nos deixa a advertência de que quando a violência é naturalizada e a perseguição ao diferente passa a ser considerada aceitável a própria sociedade contribui para legitimar práticas de opressão.

O autoritarismo brasileiro e a permanência do chicote

No Brasil, o autoritarismo não começou com o bolsonarismo. Suas raízes são mais antigas e estão relacionadas à escravidão, ao racismo estrutural, à concentração de terras e riquezas e à desigualdade social.

A abolição da escravidão não foi acompanhada de políticas capazes de garantir à população negra acesso à terra, à educação, à moradia e ao trabalho digno. Essa exclusão deixou marcas profundas que continuam presentes nas instituições e nas relações sociais.

Ainda convivemos com uma realidade em que a pobreza é frequentemente tratada como ameaça e a violência contra os mais vulneráveis é naturalizada. Trabalhadores, população negra, moradores das periferias, mulheres e pessoas LGBTQIA+ enfrentam preconceitos e diferentes formas de discriminação. Nesse cenário, discursos que criminalizam a pobreza, defendem a força como solução para os problemas sociais ou relativizam os direitos humanos encontram terreno fértil.

O problema não está apenas nas manifestações explícitas de preconceito, mas também nas estruturas que distribuem desigualmente proteção, oportunidades e direitos. Enfrentar essas desigualdades é indispensável. Não basta garantir eleições livres se milhões de brasileiros continuam sem acesso efetivo à justiça, à segurança e às condições necessárias para viver com dignidade.

Uma sociedade que não protege os mais vulneráveis e convive passivamente com a desigualdade extrema ainda tem muito a conquistar.

Bolsonarismo: autoritarismo e repertório de inspiração fascista

A análise do bolsonarismo exige rigor histórico. Não seria correto afirmar que o Brasil se transformou em uma ditadura fascista equivalente aos regimes de Mussolini ou Hitler. São experiências distintas e suas diferenças precisam ser respeitadas.

Isso não impede reconhecer elementos autoritários no bolsonarismo como a exaltação da liderança, hostilidade ao pluralismo, construção de inimigos internos, deslegitimação das instituições e tolerância à violência política.

Em seu artigo “Regime autocrático e viés fascista: um roteiro exploratório”, publicado em 2022 na revista Lua Nova, André Singer contribui para esse debate ao analisar a orientação autocrática do governo Bolsonaro e identificar métodos de mobilização com viés fascista no movimento bolsonarista.

O que está em questão é a tentativa de transformar adversários em inimigos, enfraquecer as instituições, desacreditar as regras do jogo político e fazer da intolerância uma prática de poder. O bolsonarismo, portanto, não deve ser analisado apenas como uma liderança ou uma candidatura. Sua força também está nas ideias e nos comportamentos que encontram sustentação em parcelas da sociedade. É por isso que sua derrota eleitoral não encerra o problema.

A eleição de 2026: soberania popular e vitória democrática

Os números oficiais do Tribunal Superior Eleitoral mostram a dimensão da escolha feita pelos brasileiros. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos.

A eleição colocou em confronto diferentes concepções sobre o papel do Estado, os direitos sociais, as liberdades políticas e o lugar do Brasil no mundo. A maioria escolheu a continuidade de um projeto comprometido com a participação popular e a autonomia nacional.

A soberania popular está na capacidade de o povo escolher seus representantes e decidir os rumos políticos do país. A soberania nacional, por sua vez, significa preservar a autonomia brasileira para defender seus interesses e tomar decisões sem submissão indevida a pressões externas.

A reeleição de Lula representa a afirmação dessas duas dimensões: a escolha da maioria e a defesa da capacidade do Brasil de determinar seus próprios caminhos. O resultado precisa ser respeitado por todos. O reconhecimento da vontade expressa nas urnas e o respeito à Constituição são indispensáveis à estabilidade institucional.

Vencemos a barbárie, mas a democracia exige vigilância

A tarefa agora é transformar a vitória eleitoral em avanços concretos como combater o racismo e todas as formas de discriminação, enfrentar as desigualdades, fortalecer os direitos humanos e ampliar as oportunidades para a população.

Também é fundamental preservar a soberania nacional e garantir que o Brasil possa decidir seus próprios caminhos, colocando os interesses de seu povo acima de qualquer tentativa de subordinação.

FONTES DE PESQUISA E REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República.

DE GRAND, Alexander J. Fascist Italy and Nazi Germany: the “Fascist” style of rule. 2. ed. London: Routledge, 2005.

MARTUSCELLI, Danilo Enrico. Nicos Poulantzas e a teoria política do fascismo: 50 anos depois. Princípios, v. 40, n. 161, p. 41–60, 2021. DOI: 10.4322/principios.2675-6609.2021.161.003.

POULANTZAS, Nicos. Fascisme et dictature: la IIIe Internationale face au fascisme. Paris: François Maspero, 1970.

SINGER, André. Regime autocrático e viés fascista: um roteiro exploratório. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n. 116, p. 53–82, 2022. DOI: 10.1590/0102-053082/116.

UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Holocaust Encyclopedia: The Gestapo: Overview; Nazi Terror Begins. Washington, D.C.: USHMM.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Resultado do segundo turno das Eleições 2026. Brasília, DF, 25 out. 2026.

A formulação da tese central e a interpretação econômica, sociopolítica e geopolítica, são de autoria de Francisco José de Oliveira, cientista social, para publicação no blog No Alvo com Chico Zé.