Como o protecionismo de Donald Trump, as contradições internas dos Estados Unidos e a reorganização da economia mundial expõem os limites da hegemonia norte-americana e abrem novas perspectivas para os BRICS e o desenvolvimento soberano do Sul Global.
Francisco José de Oliveira — Cientista Social
Até mesmo as grandes potências enfrentam limites
A derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas de 3 de novembro de 2026, com a conquista da Câmara dos Representantes e do Senado pelos democratas, representa um importante revés político para Donald Trump. O resultado não deve ser interpretado apenas como uma disputa entre dois partidos, mas também como um sinal de insatisfação de parcelas da sociedade norte-americana com os rumos do governo.
Os Estados Unidos continuam sendo uma das maiores potências econômicas, militares e tecnológicas do planeta. Entretanto, o poder de uma nação não se mede somente pela força de suas armas, pelo tamanho de sua economia ou pela influência de sua moeda. Também depende da capacidade de garantir condições dignas de vida à população, preservar a estabilidade institucional e manter relações de confiança com outros países.
A derrota republicana não significa o fim da hegemonia norte-americana, mas deixa uma mensagem importante: nenhuma potência está acima das consequências de suas próprias decisões e nenhum governo consegue ignorar indefinidamente as insatisfações de sua população.
O protecionismo de Trump e a conta que chega à população
Donald Trump apresentou sua política comercial como uma estratégia para proteger a indústria norte-americana, recuperar empregos e fortalecer a economia dos Estados Unidos. Para isso, elevou tarifas de importação, pressionou parceiros comerciais e utilizou o poder econômico norte-americano como instrumento de negociação.
A defesa da indústria nacional é uma questão legítima para qualquer país. O problema começa quando essa proteção se transforma em uma política de confronto comercial sem considerar as consequências para a própria economia.
Em um mundo conectado por cadeias internacionais de produção, aumentar tarifas não significa simplesmente fazer outros países pagarem a conta. Empresas norte-americanas também precisam importar matérias-primas, componentes, equipamentos e produtos utilizados na fabricação de bens de consumo.
Quando esses custos aumentam, alguém acaba pagando. Muitas vezes, são as próprias empresas e famílias norte-americanas que enfrentam produtos mais caros, redução do poder de compra e maior insegurança econômica.
Estudos recentes do Federal Reserve demonstram que a política tarifária de Trump produziu efeitos sobre os preços, os custos empresariais e o consumo das famílias norte-americanas. Uma pesquisa do Federal Reserve de Nova York identificou que parte do aumento das tarifas chegou aos preços pagos pelos consumidores. Outro estudo apontou que as famílias de baixa renda suportaram proporcionalmente maior impacto econômico.
É uma contradição difícil de ignorar, uma política apresentada como defesa da economia nacional pode acabar pressionando justamente aqueles que deveria beneficiar. O problema não está em proteger a produção interna, mas em acreditar que uma economia tão integrada ao mundo possa crescer de maneira sustentável por meio de barreiras comerciais e conflitos permanentes.
A derrota republicana e os limites do poder de Trump
A conquista das duas casas do Congresso pelos democratas muda a relação de forças em Washington. O governo Trump passa a enfrentar uma oposição com maior capacidade de fiscalizar sua administração, questionar decisões e dificultar a aprovação de propostas legislativas.
O resultado eleitoral também revela que o discurso político precisa encontrar respostas para os problemas reais da população. Não basta falar em grandeza nacional quando o trabalhador enfrenta dificuldades para pagar aluguel, comprar alimentos, abastecer o carro ou garantir atendimento de saúde à família.
As decisões de um governo precisam ser avaliadas pelo impacto que produzem na vida das pessoas. É nesse ponto que a política econômica e a disputa eleitoral se encontram. A derrota republicana representa, portanto, um importante sinal de contestação à condução do governo e abre uma nova etapa de disputas institucionais nos Estados Unidos.
A crise social e política por trás da potência americana
Por trás dos arranha-céus, das grandes empresas de tecnologia e do poderio militar, existe uma sociedade que também enfrenta problemas profundos. Os Estados Unidos convivem com desigualdade de renda, moradia cara, dificuldades de acesso à saúde, endividamento familiar, tensões raciais, polarização política e insegurança econômica para parcelas significativas da população.
É preciso olhar para além dos indicadores de riqueza. Um país pode apresentar uma economia gigantesca e, ao mesmo tempo, ter milhões de pessoas preocupadas com a sobrevivência financeira, o emprego e o futuro dos filhos.
Segundo o Census Bureau, 34,5 milhões de norte-americanos viviam abaixo da linha oficial de pobreza em 2025, enquanto 26,7 milhões passaram o ano sem seguro de saúde. Embora a renda familiar mediana tenha alcançado um recorde histórico e a taxa oficial de pobreza tenha diminuído, esses números mostram que o crescimento econômico não elimina as desigualdades nem garante segurança social para todos.
Essa é uma das grandes contradições da sociedade norte-americana, pois a concentração de riqueza e poder convive com dificuldades sociais que não são resolvidas apenas pelo crescimento econômico.
A polarização entre republicanos e democratas também expressa conflitos mais profundos sobre direitos, imigração, segurança, distribuição de recursos e o papel do Estado na proteção social. Quando o debate político se transforma em confronto permanente, a sociedade perde espaço para discutir soluções concretas. As famílias continuam enfrentando suas dificuldades, enquanto as instituições precisam lidar com uma crescente divisão política.
A política de Trump, com sua retórica nacionalista e seus confrontos comerciais, não elimina essas contradições. Ao contrário, pode ampliar as tensões quando as decisões econômicas não respondem às necessidades cotidianas da população.
A questão é simples, uma nação não pode ser considerada plenamente forte apenas porque possui poder financeiro e militar. Sua verdadeira capacidade também depende de como trata sua população e de como enfrenta suas desigualdades.
As consequências para o restante do mundo
As decisões tomadas em Washington não ficam restritas às fronteiras norte-americanas. Quando os Estados Unidos aumentam tarifas, pressionam parceiros comerciais e modificam suas regras de importação, o impacto chega às economias de diferentes continentes.
Empresas precisam procurar novos fornecedores, reorganizar suas cadeias de produção e buscar outros mercados. Países que dependiam fortemente do comércio com os norte-americanos passam a considerar alternativas para proteger seus interesses econômicos. Esse movimento produz consequências importantes.
Primeira: diversificação comercial. Países passam a procurar novos compradores e fornecedores, ampliando suas relações com outras regiões.
Segunda: busca por maior autonomia econômica. Economias emergentes percebem que depender excessivamente de um único mercado ou centro financeiro pode representar riscos.
Terceira: aumento da instabilidade internacional. Quando as regras comerciais mudam constantemente, empresas e governos enfrentam dificuldades para planejar investimentos e projetos de longo prazo.
Isso não significa que os Estados Unidos perderão imediatamente sua influência. O dólar continua sendo a principal moeda de reserva internacional e o país mantém enorme capacidade tecnológica, financeira e militar, mas o mundo já não depende exclusivamente das decisões de Washington. Outros centros econômicos estão crescendo, ampliando suas relações e reivindicando maior participação nas decisões internacionais.
BRICS: uma oportunidade para o Sul Global
É nesse cenário que o fortalecimento dos BRICS ganha importância. O grupo reúne onze países: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, conforme a composição apresentada institucionalmente pelo governo brasileiro. O bloco também mantém uma categoria de países parceiros, que não deve ser confundida com a condição de membro pleno.
O significado dos BRICS vai além de uma articulação comercial. Representa também a busca por maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões que historicamente foram concentradas nas grandes potências. Para o Sul Global essa aproximação abre possibilidades concretas.
Diversificação comercial: ampliar o comércio entre países emergentes e reduzir a dependência de mercados tradicionais.
Uso de moedas nacionais: desenvolver mecanismos de pagamento que diminuam a necessidade de utilizar o dólar em determinadas transações internacionais.
Financiamento: fortalecer o Novo Banco de Desenvolvimento, criado para apoiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.
Tecnologia e industrialização: ampliar parcerias em energia renovável, agricultura, inteligência artificial, indústria e inovação.
Autonomia diplomática: dar maior voz aos países em desenvolvimento nas decisões sobre comércio, financiamento, meio ambiente e governança internacional.
O Novo Banco de Desenvolvimento já representa um instrumento concreto dessa cooperação. Da mesma forma, as discussões sobre pagamentos internacionais em moedas nacionais demonstram a busca por alternativas operacionais ao sistema financeiro tradicional.
É importante, entretanto, compreender que os BRICS não são um bloco sem contradições. Seus integrantes possuem interesses econômicos e políticos diferentes, e ainda existem desafios importantes para transformar a cooperação em resultados concretos.
Não existe uma moeda comum dos BRICS, nem uma integração econômica equivalente à de um mercado comum. O fortalecimento do grupo depende da capacidade de construir acordos, superar divergências e desenvolver projetos que beneficiem seus integrantes. O objetivo não deve ser trocar uma dependência por outra, mas ampliar as possibilidades de escolha e negociação dos países do Sul Global.
O Brasil diante das novas oportunidades
Para o Brasil, esse momento representa uma oportunidade de pensar seu futuro para além da condição de grande exportador de matérias-primas. Nosso país possui recursos naturais, capacidade agrícola, reservas minerais, mercado consumidor, potencial industrial e uma matriz energética com expressiva participação de fontes renováveis. Essas características podem contribuir para uma presença mais forte nas cadeias internacionais de produção e tecnologia.
Na área de energia, por exemplo, o Brasil tem condições de ampliar sua participação nos setores de energia solar, eólica, biocombustíveis, hidrogênio de baixo carbono e armazenamento energético. Na agricultura pode fortalecer sua posição no comércio internacional, diversificar mercados e agregar mais valor à produção nacional. Na indústria o desafio é aproveitar investimentos e parcerias para gerar conhecimento, empregos qualificados e capacidade produtiva dentro do país.
Mas existe uma questão fundamental: de que adianta ampliar exportações e investimentos se os resultados não chegam à população?
O desenvolvimento precisa significar mais oportunidades de trabalho, melhores salários, acesso à educação, saúde, moradia e redução das desigualdades. A política externa deve estar conectada a um projeto nacional de desenvolvimento. A soberania econômica precisa melhorar a vida das pessoas.
A hegemonia norte-americana e a construção de um mundo multipolar
É necessário reconhecer que os Estados Unidos continuam sendo uma potência de enorme influência. Sua presença no sistema financeiro, sua capacidade de inovação e seu poder militar não desaparecerão por causa de uma derrota eleitoral. Entretanto, a ordem internacional está passando por mudanças importantes.
A China ampliou sua presença industrial e comercial. A Índia ganhou relevância econômica. Países da África, da Ásia e da América Latina buscam novas oportunidades de desenvolvimento e maior participação nas decisões internacionais. Nesse processo, a hegemonia norte-americana passa a conviver com outros centros de poder.
A construção de um mundo multipolar não significa necessariamente o desaparecimento de uma potência ou a substituição automática de uma liderança por outra, mas que as decisões internacionais tendem a depender cada vez mais da negociação entre diferentes atores.
Para os países em desenvolvimento essa transformação pode representar uma oportunidade histórica de participar das decisões, defender seus interesses e construir relações internacionais menos dependentes de imposições externas.
Desenvolvimento para quem?
Toda essa discussão precisa chegar a questão essencial de quem realmente se beneficia das transformações da economia mundial? O crescimento do comércio, dos investimentos e da produção não pode ser medido apenas pelos lucros das grandes empresas ou pelos indicadores dos mercados financeiros.
É preciso observar se essas mudanças geram empregos, reduzem a pobreza, melhoram os serviços públicos e ampliam as oportunidades para quem historicamente ficou à margem do desenvolvimento. O Sul Global precisa defender uma agenda que envolva soberania alimentar, acesso à tecnologia, financiamento climático, proteção ambiental, geração de empregos e redução das desigualdades.
O Brasil tem condições de contribuir para esse debate, fortalecendo a cooperação Sul-Sul e defendendo uma governança internacional mais representativa. A multipolaridade só terá verdadeiro significado social se ajudar a construir um mundo no qual o desenvolvimento não seja privilégio de poucos países ou de pequenos grupos econômicos.
O mundo está mudando e o Sul Global precisa ocupar seu espaço
A derrota dos republicanos nas eleições legislativas de 2026 representa um importante revés político para Donald Trump. A conquista da Câmara e do Senado pelos democratas modifica a correlação de forças em Washington e demonstra que as decisões do governo também encontram resistência dentro da própria sociedade norte-americana.
As contradições econômicas, a desigualdade social, o custo de vida e a polarização política mostram que nem mesmo a maior potência mundial está livre de problemas estruturais. A política protecionista de Trump, ao elevar barreiras comerciais e tensionar relações internacionais, também contribui para estimular outros países a diversificarem seus mercados e procurarem alternativas de cooperação.
É nesse contexto que os BRICS ganham importância para o Sul Global. Para o Brasil, abre-se uma oportunidade de fortalecer sua autonomia, ampliar parcerias internacionais e construir um projeto de desenvolvimento que valorize a indústria, a ciência, a tecnologia, a energia limpa e, principalmente, as pessoas.
Não se trata de defender a substituição de uma potência por outra, nem de ignorar as contradições existentes entre os próprios países emergentes, mas de defender o direito de cada nação decidir seus caminhos e participar das decisões que afetam seu futuro. A política de Trump enfrenta limites econômicos, sociais e institucionais, enquanto a reorganização da economia mundial abre novas possibilidades para os países emergentes.
O debate sobre o poder internacional não diz respeito apenas a governos e mercados financeiros. Diz respeito também ao direito dos povos de construir seus próprios caminhos de desenvolvimento, com soberania, dignidade e justiça social.
O mundo não pertence a uma única potência e o desenvolvimento não pode continuar sendo privilégio de poucos. O Sul Global não pode continuar apenas assistindo às decisões tomadas pelas grandes potências, precisa participar, negociar e construir seu próprio futuro.
Referências para aprofundamento
- REUTERS. Cobertura das eleições legislativas norte-americanas de 2026.
- ASSOCIATED PRESS. Cobertura dos resultados das eleições para o Congresso dos Estados Unidos, novembro de 2026.
- FEDERAL RESERVE BANK OF NEW YORK. The Anatomy of Tariff Pass-Through into Consumer Prices. 2026.
- FEDERAL RESERVE. Paying More and Buying Less: 2025 Tariffs and U.S. Household Spending. 2026.
- FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). United States: 2026 Article IV Consultation.
- U.S. CENSUS BUREAU. Income, Poverty and Health Insurance Coverage in the United States: 2025. Setembro de 2026.
- BRICS BRASIL. Informações institucionais sobre composição, objetivos e expansão do bloco.
- NOVO BANCO DE DESENVOLVIMENTO (NDB). Informações institucionais sobre financiamento de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.
A formulação da tese central e a interpretação econômica, sociopolítica e geopolítica, são de autoria de Francisco José de Oliveira, cientista social, para publicação no blog No Alvo com Chico Zé.

