Por Francisco José de Oliveira
Vivemos um dos momentos mais complexos e decisivos da história contemporânea. O mundo assiste ao enfraquecimento relativo da hegemonia norte-americana, construída após a Segunda Guerra Mundial, e, ao mesmo tempo, presencia a ascensão de novos centros de poder, especialmente a China. Na minha avaliação, essa disputa não pode ser compreendida apenas como uma rivalidade entre duas grandes potências; ela é, sobretudo, uma expressão da crise estrutural do capitalismo global e da transição para uma ordem internacional multipolar.
Desde a crise financeira de 2008, tornaram-se evidentes os limites do modelo econômico baseado na financeirização, na concentração de riqueza e na expansão permanente dos mercados. Enquanto os Estados Unidos enfrentam desafios econômicos, sociais e políticos internos, a China consolidou-se como uma potência tecnológica, industrial e comercial capaz de disputar espaços estratégicos em praticamente todos os continentes.
É nesse contexto que devemos compreender o fortalecimento das alianças militares lideradas por Washington na região do Indo-Pacífico. Japão, Filipinas, Austrália, Canadá e Nova Zelândia vêm ampliando sua cooperação em matéria de defesa sob o argumento de conter a influência chinesa. Para os Estados Unidos, trata-se de preservar sua posição de liderança global; para a China, porém, esse movimento é percebido como uma tentativa de cerco estratégico.
Na minha opinião, existe uma narrativa amplamente difundida por setores ligados à política externa norte-americana que procura apresentar a China como uma ameaça iminente à ordem internacional. Entretanto, quando observamos a trajetória histórica recente, percebemos que Pequim concentrou seus esforços, sobretudo, no desenvolvimento econômico, tecnológico e na ampliação de suas relações comerciais. Isso não significa ignorar o fortalecimento militar chinês, que é real e crescente, mas compreender que esse processo ocorre em um ambiente de crescente pressão geopolítica.
A questão de Taiwan talvez seja, atualmente, o ponto mais sensível dessa disputa. Para o governo chinês, trata-se de um tema diretamente relacionado à soberania nacional. Pequim tem sido enfática ao afirmar que qualquer tentativa de independência formal da ilha ou de intervenção estrangeira poderá desencadear uma resposta firme. Nesse cenário, a crescente presença militar dos Estados Unidos e de seus aliados na região eleva significativamente os riscos de uma escalada das tensões.
O que observo é que estamos diante de uma disputa pela reorganização do poder mundial. A crise do capital não afeta apenas a economia, ela provoca, igualmente, transformações profundas na geopolítica. Historicamente, períodos de transição hegemônica costumam ser acompanhados por disputas em torno de mercados, recursos naturais, rotas comerciais, tecnologias estratégicas e áreas de influência. Foi assim em diversos momentos da história e não parece ser diferente na conjuntura atual.
Por essa razão, considero equivocado interpretar os acontecimentos contemporâneos apenas sob a lógica simplista do confronto entre “democracias” e “autoritarismos”, narrativa frequentemente utilizada pelos grandes centros de poder. O que está em jogo é uma disputa muito mais ampla, envolvendo interesses econômicos, estratégicos e geopolíticos de alcance global.
A emergência da multipolaridade representa uma mudança significativa. Países como China, Índia, Rússia e diversas nações do Sul Global passaram a reivindicar maior protagonismo nos processos decisórios internacionais. Esse movimento desafia a lógica de concentração de poder que marcou o sistema internacional nas últimas décadas e abre espaço para novas formas de cooperação econômica e política.
Para o Brasil, essa transição deve ser encarada como uma oportunidade estratégica. Nosso país dispõe de abundantes recursos naturais, capacidade produtiva, relevância geopolítica e potencial para atuar de forma soberana em um mundo cada vez mais multipolar. Contudo, isso exige planejamento de longo prazo, fortalecimento das instituições nacionais e uma política externa independente, capaz de dialogar com diferentes polos de poder sem abrir mão dos interesses nacionais.
Ao analisar os acontecimentos atuais, compreendo que o maior desafio da humanidade não reside apenas na disputa entre Estados Unidos e China, mas na capacidade de impedir que a competição geopolítica se converta em um conflito militar de grandes proporções. Em um mundo marcado pela existência de arsenais nucleares e pela crescente interdependência econômica, a paz deve ser construída por meio do diálogo, da cooperação e do respeito à soberania dos povos.
A multipolaridade já não é uma hipótese para o futuro, ela constitui uma realidade em construção. A questão central consiste em saber se essa nova ordem internacional será capaz de promover maior equilíbrio entre as nações ou se continuará reproduzindo as disputas, assimetrias e desigualdades que historicamente marcaram o desenvolvimento do capitalismo global. Essa é uma reflexão indispensável para todos aqueles que buscam compreender os rumos do século XXI.
Referências
ARRIGHI, Giovanni; WALLERSTEIN, Immanuel; AMIN, Samir; HARVEY, David; FIORI, José Luís; SANTOS, Theotonio dos; MARINI, Ruy Mauro; MEARSHEIMER, John; ALLISON, Graham. Estudos sobre capitalismo global, hegemonia, imperialismo, sistema-mundo e transição multipolar.
Referências institucionais e documentos estratégicos
• SIPRI – Stockholm International Peace Research Institute
• UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento
• Banco Mundial
• Fundo Monetário Internacional (FMI)
• Ministério das Relações Exteriores da China
• Departamento de Defesa dos Estados Unidos

