A crise regional não é um conjunto de fatos isolados, mas parte de uma disputa geopolítica que ajudará a definir o futuro da América Latina no século XXI.
Por Francisco José de Oliveira
Quando observamos os acontecimentos recentes na América Latina (a crise política no Peru, os conflitos sociais na Bolívia, os desafios econômicos da Argentina, a ascensão da direita no Chile, a violência associada ao narcotráfico no México e as constantes disputas em torno dos recursos naturais da região) chegamos a uma conclusão inevitável: não estamos diante de problemas isolados. O que está em curso é uma profunda disputa geopolítica que envolve soberania, recursos estratégicos, influência internacional e modelos de desenvolvimento.
A narrativa dominante costuma atribuir as dificuldades latino-americanas exclusivamente à corrupção, à ineficiência administrativa ou à polarização política. Embora esses fatores existam e não possam ser ignorados, eles não explicam, por si sós, a persistência das crises. É necessário compreender as raízes históricas e estruturais que mantêm a região em uma posição de dependência econômica e vulnerabilidade política.
Historicamente, a América Latina foi inserida na economia mundial como fornecedora de matérias-primas e consumidora de produtos industrializados. Essa condição de dependência, construída ao longo dos séculos, não foi plenamente superada. Ao contrário, foi atualizada por meio do sistema financeiro internacional, dos organismos multilaterais de crédito, das grandes corporações transnacionais e das novas formas de inserção subordinada na economia global.
Desde o século XIX, a influência dos Estados Unidos tem sido um dos elementos centrais da dinâmica política e econômica regional. A partir da Doutrina Monroe, consolidou-se uma visão estratégica segundo a qual a América Latina seria uma área prioritária para os interesses norte-americanos. Ao longo do século XX, essa influência manifestou-se por meio de intervenções militares, pressões diplomáticas, apoio a governos alinhados e mecanismos econômicos voltados à preservação da hegemonia regional de Washington.
Entretanto, o cenário internacional mudou significativamente nas últimas décadas. A ascensão da China como potência econômica global abriu uma nova frente de disputa. Atualmente, a América Latina tornou-se um espaço estratégico para a competição entre grandes potências, especialmente em torno de recursos considerados essenciais para a nova economia mundial.
O lítio boliviano, o cobre chileno, o petróleo venezuelano, o pré-sal brasileiro, a biodiversidade amazônica e os minerais estratégicos existentes em diversos países da região transformaram a América Latina em uma peça central da transição energética e tecnológica em curso. A disputa por esses recursos não é apenas econômica, trata-se de uma questão profundamente geopolítica.
Nesse contexto, a instabilidade política frequentemente se entrelaça com interesses econômicos globais. A Bolívia, por exemplo, encontra-se no centro das atenções internacionais devido às suas vastas reservas de lítio. O Chile enfrenta debates sobre o controle de seus recursos minerais e sobre os rumos de seu modelo de desenvolvimento. O Peru vive uma crise institucional permanente que compromete sua capacidade de planejamento estratégico. A Argentina continua submetida a ciclos recorrentes de endividamento e instabilidade monetária, fatores que limitam sua autonomia econômica.
No México, a situação assume contornos ainda mais complexos. A expansão dos cartéis do narcotráfico desafia a autoridade do Estado, enquanto as tensões com os Estados Unidos evidenciam as dificuldades de equilibrar soberania nacional e dependência econômica. Questões migratórias, segurança de fronteiras e combate ao crime organizado transformaram-se em temas permanentes de pressão política e diplomática.
Paralelamente, a América Latina enfrenta a expansão do crime organizado transnacional. Narcotráfico, contrabando, mineração ilegal, tráfico de armas e lavagem de dinheiro operam em escala continental, corroendo instituições públicas e ampliando a fragilidade dos Estados nacionais. Em determinadas regiões, essas organizações passaram a exercer influência comparável à de estruturas formais de poder.
Outro elemento frequentemente negligenciado é a dimensão ambiental da geopolítica contemporânea. A Amazônia, as reservas de água doce, os minerais críticos e a biodiversidade latino-americana converteram-se em ativos estratégicos em um contexto marcado pelas mudanças climáticas e pela transição energética global. O controle desses recursos poderá influenciar significativamente os rumos da economia mundial nas próximas décadas.
Na minha avaliação, a principal questão colocada para a América Latina consiste em saber se a região continuará ocupando a posição histórica de exportadora de matérias-primas e importadora de tecnologia ou se será capaz de construir um projeto soberano de desenvolvimento. Isso exige integração regional, fortalecimento das instituições democráticas, investimentos em ciência e tecnologia, agregação de valor às cadeias produtivas e maior autonomia diante dos centros tradicionais de poder.
A verdade é que a América Latina encontra-se em uma encruzilhada histórica. As disputas que hoje envolvem lítio, petróleo, minerais estratégicos, biodiversidade, infraestrutura, rotas comerciais e mercados consumidores fazem parte de uma transformação mais ampla da ordem internacional. O mundo caminha para uma configuração cada vez mais multipolar, e a posição que a região ocupará nesse novo cenário dependerá de sua capacidade de transformar riqueza natural em desenvolvimento econômico, justiça social e soberania política.
Mais do que nunca, a luta pela soberania deixou de ser apenas uma questão ideológica. Tornou-se uma condição indispensável para que os povos latino-americanos possam decidir seu próprio destino em um mundo marcado por disputas crescentes entre as grandes potências.
No século XXI, a verdadeira independência não será medida apenas pela existência formal de Estados soberanos, mas pela capacidade efetiva de cada nação controlar seus recursos estratégicos, definir suas prioridades de desenvolvimento e exercer sua autodeterminação em um sistema internacional cada vez mais competitivo e complexo.
Referências
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Leituras complementares: Geopolítica, Economia Política Internacional, Teoria da Dependência e Multipolaridade.

