As eleições de 2026 serão mais do que uma disputa pelo poder. Serão um teste para a democracia brasileira, para a soberania nacional e para a capacidade de o povo decidir seu próprio destino.
Por Francisco José de Oliveira — Chico Zé
O Brasil chegará às eleições de 4 de outubro de 2026 em um cenário político e internacional que exige atenção, responsabilidade e serenidade. O que estará em disputa não será apenas a Presidência da República, os governos estaduais ou as cadeiras do Congresso Nacional. Estará em jogo também o projeto de país que queremos construir e a nossa capacidade de conduzir o próprio destino em um mundo marcado por disputas cada vez mais intensas.
Não acredito que o principal risco seja uma intervenção militar direta dos Estados Unidos, não existem elementos concretos que sustentem seriamente essa hipótese. O perigo é mais sofisticado e pode ser exercido por outros meios como pressão diplomática, tarifas comerciais, sanções, interesses econômicos, disputas tecnológicas e influência sobre o ambiente informacional.
É justamente por isso que precisamos olhar para as eleições de 2026 com atenção, consciência histórica e compromisso com a democracia.
O Brasil já conheceu uma ruptura democrática. Em 1964 o país mergulhou em uma ditadura que durou mais de duas décadas, marcada por censura, perseguições, cassações, prisões, torturas e restrições às liberdades políticas e civis. Essa experiência não pode ser esquecida, não para alimentar ressentimentos, mas para evitar que os erros do passado voltem a se repetir.
A história da América Latina também mostra que os conflitos internos dos países da região muitas vezes estiveram ligados às disputas internacionais. Durante a Guerra Fria o continente tornou-se espaço de competição entre grandes potências e diferentes projetos políticos. O mundo mudou, mas a disputa por influência e poder continua. E o Brasil permanece estratégico.
Somos uma das maiores economias do planeta, temos território continental, enorme mercado consumidor, produção agrícola competitiva, petróleo, minerais estratégicos, água, biodiversidade e grande potencial energético. Nossa posição no Atlântico Sul também possui importância geopolítica.
Por isso, o Brasil precisa manter relações com os Estados Unidos, a China, a Europa, a África e a América Latina, ampliando seus vínculos comerciais, diplomáticos, científicos e tecnológicos. Mas relacionamento internacional não pode significar submissão.
O Brasil não pode ser quintal de Washington, Pequim, Moscou ou de qualquer outra potência. Nossa política externa precisa defender o interesse nacional e preservar a capacidade de decisão do Estado brasileiro.
Essa discussão também passa pela economia. Tarifas, sanções e barreiras comerciais podem atingir empresas, trabalhadores, produtores, investimentos, empregos e renda. Não podemos afirmar, sem evidências, que determinada medida econômica tenha como objetivo interferir nas eleições brasileiras, mas também seria ingenuidade ignorar que economia e política caminham juntas.
Um país mais dependente é também mais vulnerável à pressão externa. Defender a soberania, portanto, exige fortalecer a economia nacional, diversificar parceiros comerciais, investir em ciência e tecnologia e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
Mas talvez um dos maiores desafios de 2026 esteja em um lugar muito mais próximo: dentro do celular de cada brasileiro.
As redes sociais transformaram a maneira como nos informamos e fazemos política. A inteligência artificial ampliou esse problema. Hoje, vídeos, fotografias, áudios e declarações falsas podem ser produzidos com enorme facilidade e alcançar milhões de pessoas em poucas horas. A mentira pode circular muito mais rápido do que a verdade.
Por isso, precisamos compreender que não é necessário fraudar uma eleição para enfraquecer uma democracia, pode ser suficiente convencer uma parcela da sociedade de que ela foi fraudada.
Quando o cidadão deixa de confiar nas urnas, na Justiça Eleitoral, na imprensa e nas instituições, a democracia começa a perder seu principal sustentáculo, a confiança pública.
Mas seria um erro colocar toda a responsabilidade nas forças externas. Temos problemas dentro de casa. A polarização política brasileira chegou a um nível preocupante. Em muitos momentos, o adversário deixou de ser tratado como adversário e passou a ser visto como inimigo. Esse caminho é perigoso.
A democracia não existe para eliminar o conflito. O conflito faz parte da política. O que a democracia exige é que as divergências sejam enfrentadas dentro das regras e sem violência. Podemos discordar profundamente, combater projetos políticos e disputar eleições sem negar ao outro o direito de participar da vida pública.
Democracia não significa ganhar sempre, significa também saber perder.Quem não aceita a derrota eleitoral e considera ilegítimo o direito do adversário de governar não compreendeu o princípio básico da democracia.
O mesmo vale para as instituições. O Judiciário não pode ser instrumento partidário. O Congresso não pode ser extensão de governos, a imprensa não deve se transformar em aparelho de propaganda e as Forças Armadas não podem ser utilizadas como instrumento de disputa política.
As Forças Armadas pertencem ao Estado brasileiro e devem cumprir sua missão constitucional acima das disputas eleitorais. A experiência de 1964 deveria ser suficiente para nos lembrar dos riscos da politização das instituições e do preço de uma ruptura democrática.
Existe ainda uma dimensão que não podemos ignorar: a América do Sul. O Brasil é a maior economia e o país territorialmente mais extenso da região. Uma crise institucional profunda não ficaria limitada às nossas fronteiras, poderia afetar a economia regional, enfraquecer projetos de integração e ampliar as disputas geopolíticas.
Defender a democracia brasileira também significa contribuir para a estabilidade sul-americana. Um Brasil democrático, soberano e estável fortalece seus vizinhos. Um Brasil mergulhado em conflitos internos abre espaço para a instabilidade e para uma maior influência externa.
É preciso, portanto, compreender que soberania não significa isolamento. Ser soberano não significa fechar as portas para o mundo. Significa ter capacidade de decidir, escolher alianças, negociar em defesa dos interesses nacionais e dizer não quando necessário. E, sobretudo, significa reconhecer que a soberania pertence ao povo.
Não existe soberania nacional verdadeira quando o povo não pode escolher livremente seus governantes.
É por isso que democracia e soberania são inseparáveis. As eleições de 2026 exigirão atenção à desinformação, à manipulação das redes, ao uso político da inteligência artificial, à violência, às tentativas de deslegitimar o processo eleitoral, às pressões econômicas e às possíveis formas de influência externa. Mas precisamos olhar também para dentro.
Uma democracia pode sofrer pressão de fora, mas também pode ser destruída por dentro quando abandonamos o diálogo, transformamos adversários em inimigos, normalizamos a violência, recusamos o resultado das urnas ou acreditamos que somente o nosso grupo representa o verdadeiro Brasil. É nesse momento que a democracia começa a perder espaço.
O Brasil não precisa de uma nova ruptura, precisa de mais democracia, mais diálogo e mais soberania. Não precisa escolher entre uma potência e outra, precisa defender seus próprios interesses.
Não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer que todos têm o direito de participar da vida política. Essa é uma das maiores demonstrações de maturidade que podemos oferecer como sociedade.
As eleições de 2026 serão importantes, mas a democracia não termina quando as urnas fecham. Ela continua quando aceitamos o resultado, respeitamos quem pensa diferente, cobramos nossos governantes, defendemos as instituições e rejeitamos a violência política. Nenhum governo, partido ou liderança está acima da democracia.
O Brasil tem condições de superar este momento., mas precisamos conhecer nossa história, compreender as transformações do mundo, fortalecer nossa economia e nossas instituições e ter coragem para defender aquilo que realmente importa.
O Brasil não deve ser quintal de nenhuma potência, mas também não pode permitir que grupos internos destruam a democracia em nome de um falso patriotismo. O futuro do país deve ser decidido pelos brasileiros: pelo voto, pelo debate, pela Constituição, pela democracia e pela paz.
Essa é a soberania que precisamos defender.
Esse é o Brasil que precisamos construir.
No Alvo com Chico Zé
— Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia, da geopolítica e do desenvolvimento do Brasil.
Referências
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BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Medidas tarifárias dos Estados Unidos sobre exportações brasileiras. Brasília, DF: MDIC, 2026. MDIC
UNESCO. Freedom of expression, artificial intelligence and elections. Paris: UNESCO, 2025. UNESCO

