por Márcio Dias
“É muito mais seguro ser temido do que amado.” — Nicolau Maquiavel
Em 4 de julho de 1776, no curso de uma revolução sangrenta, as 13 Colônias declararam independência do Império Britânico e fundaram os EUA. A guerra terminaria em 1783, com a assinatura do Tratado de Paris, no qual a Grã-Bretanha reconheceria a soberania do novo país.
Portanto, no dia 4 de julho os EUA completaram 250 anos. Em meio às “festividades” o império americano não apresentou nada de novo. O país segue diante de uma crise política, econômica, social, ideológica e institucional, liderado por uma abominável elite “Epstein” e governado por um criminoso que exerce seu poder de forma suja e perversa, causando enorme sofrimento ao seu próprio povo e a outras nações. Tudo isso em nome de um sistema falido e de uma hegemonia que não existe mais.
Nem sempre foi assim. Ao longo dos anos, os EUA expandiram e consolidaram sua supremacia absoluta e unipolar, sustentada por doutrinas voltadas para impor sua influência e dominação. O Destino Manifesto, a Doutrina Monroe, o Big Stick e a Doutrina Truman expressam claramente a ideia de que “os EUA foram escolhidos por Deus”, a máxima “a América para os americanos”, o princípio de “fale macio e use um porrete” e a “política do anticomunismo”. Com o fatídico ataque terrorista do “11 de Setembro”, sua doutrina converteu-se na “guerra ao terror”.
Todas essas formulações estruturaram seu projeto imperialista, articulando expansão territorial e hegemonia política, econômica, militar e ideológica em escala global.
Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial os EUA elevaram sua capacidade de dominação ao patamar do imperialismo financeiro, consolidando a centralização do capital e a projeção global de sua influência. Com a queda da URSS e o fim da Guerra Fria, esse processo aprofundou-se, produzindo uma postura ainda mais arrogante e agressiva na política internacional.
Porém, com o surgimento e a ascensão dos BRICS a correlação de forças na geopolítica mundial foi alterada dramaticamente. O bloco formalizou a ascensão das economias emergentes e sua demanda por maior representatividade na governança política e financeira.
Iniciou-se, assim, uma transição complexa e conflitiva rumo a uma nova ordem mundial multipolar. Embora os EUA preservem, em certo sentido, a liderança militar e financeira, sua capacidade de impor unilateralmente as regras da ordem internacional enfrenta crescentes contestações e limites estruturais cada vez mais evidentes.
Na atualidade a doutrina dos EUA expressa um imperialismo em fase decadente, marcado pela tentativa de preservar a hegemonia diante da ascensão dos BRICS, liderados pela China, e da instabilidade sistêmica gerada pela crise política, econômica, social e ideológica que corrói as bases da sociedade americana.
Trata-se da continuidade de sua política de expansão violenta do capital financeiro em meio ao esgotamento do neoliberalismo. A articulação entre poder militar, controle tecnológico e intervenção seletiva evidencia que o imperialismo, mesmo em colapso, permanece como forma contemporânea da disputa entre potências por mercados, recursos e influência, característica do estágio monopolista e tecnocrático do capitalismo.
Esse “4 de Julho” aconteceu em um momento muito peculiar. Podemos observar o avanço dos BRICS e exemplos de várias nações lutando para resistir ao imperialismo. É o caso de Cuba, que há mais de sessenta anos enfrenta o bloqueio criminoso dos EUA e, agora, com o apoio dos BRICS, está promovendo reformas econômicas importantes para desenvolver suas forças produtivas e atender às necessidades do país e do seu povo, libertando-se do imperialismo.
Estamos vendo também o Irã enfrentando os EUA e Israel por meio da unidade do seu povo, de esforços diplomáticos e de um poder bélico que ninguém imaginava, impondo uma derrota aos EUA e a Israel.
No Brasil, uma família de bandidos e traidores da pátria trama, em conluio com parte da burguesia e da mídia entreguista e golpista, pautando os EUA, para atacar nosso país com ameaças, sanções e tarifaços e, quiçá, até com intervenção militar. Mas, ao mesmo tempo, vemos o presidente Lula liderando a resistência por meio da diplomacia e de suas articulações políticas nacionais e internacionais para responder a essa situação.
O Brasil e os demais países, ao empunharem a bandeira da resistência aos EUA, estão defendendo a democracia, a soberania e seus povos contra as agressões do imperialismo.
Esse estado de coisas evidencia que a conjuntura internacional permanece profundamente condicionada pela ação dos EUA. Desde o cerco da OTAN à Rússia, quando antecedeu a operação especial contra a Ucrânia em 2022, a situação evoluiu de forma dramática. Multiplicaram-se agressões: humilhações à Europa, atos de terrorismo contra a Rússia, sequestro do presidente venezuelano, ataques ao Irã, genocídio em Gaza, ameaças de intervenção e anexação, sanções, tarifaços e assassinatos em diversos continentes. A lista de crimes dos EUA sob o governo Trump ampliou-se ainda mais.
Na verdade, a beligerância americana denuncia as tentativas desesperadas do imperialismo para conter as mudanças geopolíticas que estão acontecendo sob a liderança dos BRICS. Porém, se de um lado a contraofensiva dos EUA não funcionou no geral, por outro, no particular, conseguiu êxitos com a deflagração de muitos outros conflitos, o que é plenamente do interesse da indústria bélica americana e mundial.
Chegaram ao absurdo de tentar ressuscitar até o fantasma do nazismo na Ucrânia, com a adesão covarde da Europa, sob narrativas falaciosas para propagar a russofobia e a chinofobia com o surrado discurso anticomunista.
Mas, ao longo do conflito, à medida que as forças ucranianas foram sendo derrotadas, a Rússia surpreendeu o mundo ao adotar uma postura renovada. Para além da operação especial modernizou suas defesas para guerra convencional ou nuclear e, diante das ações terroristas ucranianas, ampliou a proteção civil sem promover ações bélicas aleatórias contra o inimigo. Paralelamente, as ameaças dos “líderes” da Itália, França, Inglaterra e dos países do leste europeu revelam tentativas de fabricar inimigos para ocultar a crise interna europeia, expressando sua subserviência aos EUA.
No entanto, após a derrota dos EUA e de Israel frente ao Irã, as mudanças geopolíticas aceleraram-se ainda mais: o regime iraniano emergiu fortalecido como uma preocupante potência regional, enquanto a Rússia avança como potência militar e econômica sem oposição concreta da OTAN, diversificando suas capacidades sob a bandeira dos BRICS e ampliando sua influência global.
Nesse sentido, China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul, o núcleo dirigente dos BRICS, avançam na criação de novos centros tecnológicos, cadeias próprias de suprimentos, infraestruturas urbanas e corredores logísticos, além da integração voltada à desdolarização e à construção de sistemas autônomos de pagamento, reduzindo a dependência do Norte Global. Seus bancos de desenvolvimento impulsionam o Sul Global, a África, o Oriente Médio e, inclusive, a Europa.
Paralelamente, o bloco segue pressionando pela reforma e reconfiguração dos organismos internacionais, confrontando a ordem unipolar. Ao integrar energia, tecnologia, finanças e cooperação militar, os BRICS reconfiguram o sistema mundial, deslocando o centro de gravidade econômico e político e abrindo caminho para uma multipolaridade em ascensão.
Em julho o bloco rompeu pela primeira vez a hegemonia do dólar em transações internas, movimento já anunciado pelo fim do petrodólar após a decisão dos Emirados Árabes Unidos. Em resposta, os EUA passaram a reconfigurar alianças e a acionar instrumentos econômicos, diplomáticos e militares para fomentar guerras regionais e tentar bloquear o petroyuan e o BRICS Pay. Tudo em vão, pois o bloco avança na inserção multilateral e na desdolarização, preparando sua expansão na cúpula de outubro de 2026.
Após 250 anos de hegemonia, os EUA tentam preservar seu poder, mas não conseguem mais impor unilateralmente seu domínio. A transição, no entanto, é permeada de conflitos, e um cessar-fogo e uma paz duradoura não interessam a quem perde influência.
Ao que tudo indica, a escalada entre o Sul Global e o que resta da OTAN parece inevitável. Em meio a isso muitos ignoram a profundidade das mudanças, presos a narrativas decadentes ou a análises rasas. Neste “4 de Julho” permanece a certeza de que os EUA seguem sendo o país mais temido e detestado do mundo, confirmando a máxima de Maquiavel de que é mais seguro ser temido do que amado. Veremos!

