Lula na Globo: Sabatina ou Inquisição?

Uma leitura jornalística sobre a entrevista de Lula na Globo

Por Francisco José de Oliveira |Chico Zé 

Como jornalista e cientista social, assisti à sabatina de Lula na Globo com atenção não apenas às respostas do presidente, mas, principalmente, à forma como as perguntas foram construídas e à agenda que a entrevista procurou estabelecer. Saí dela com uma inquietação: estávamos diante de uma sabatina presidencial ou de uma entrevista excessivamente concentrada em associar o presidente às suspeitas envolvendo seu filho?

Não defendo entrevista complacente. Jornalismo sério precisa questionar o poder, confrontar autoridades e investigar denúncias. Se houver qualquer indício de irregularidade envolvendo um familiar do presidente, que se investigue. Se houver provas, que haja responsabilização. Mas, como jornalista, considero fundamental separar fato, denúncia, investigação, suspeita e ilação. Essa fronteira não pode desaparecer.

Uma questão de proporção

Meu incômodo foi, sobretudo, com a proporcionalidade. Enquanto o Brasil enfrenta enormes desafios internos e externos, eu esperava perguntas mais abrangentes sobre soberania nacional, relações internacionais, interesses dos Estados Unidos, economia, saúde, educação, emprego, indústria, energia, desigualdade e desenvolvimento.

Uma entrevista com um candidato à Presidência da República deveria permitir ao eleitor compreender seu projeto de país, não apenas seu entorno familiar.

O filho não pode substituir o presidente

Tenho a posição clara de que ninguém está acima da lei. Se o filho de Lula praticou algum ilícito deve responder individualmente por seus atos. Mas também acredito que ninguém pode ser responsabilizado simplesmente por ser filho de alguém. Parentesco não é prova. Suspeita não é condenação. Associação não substitui evidência.

É justamente nesse ponto que o jornalismo precisa exercer sua responsabilidade social. Não posso tratar uma acusação como fato consumado, posso noticiar a denúncia, apresentar o contexto, ouvir os envolvidos e cobrar investigação, mas preciso deixar claro ao público o que está comprovado e o que ainda está sendo apurado. Essa diferença é fundamental.

O peso da história recente

Minha preocupação também tem uma dimensão histórica. O Brasil já viveu um período em que investigação, política e cobertura jornalística se misturaram de maneira extremamente intensa. 

A Lava Jato ocupou por anos o centro da agenda nacional, Sergio Moro e Deltan Dallagnol tornaram-se símbolos de combate à corrupção, enquanto Lula se transformou no principal alvo político daquele processo. Posteriormente, suas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.

Não estou dizendo que investigações contra políticos devam ser interrompidas. Estou dizendo que o jornalismo precisa aprender com a própria história. Quando uma narrativa é repetida exaustivamente antes de todas as questões estarem definitivamente esclarecidas pode produzir efeitos políticos maiores do que a própria investigação. Por isso, hoje a responsabilidade precisa ser redobrada.

Quem controla a agenda exerce poder

Como jornalista e cientista social, não consigo ignorar outro aspecto, o de que quem controla a agenda também exerce poder. A escolha das perguntas importa. A ordem importa. A repetição importa. O tempo destinado a cada assunto importa. O que recebe destaque e o que fica em segundo plano também importa.

Essa é uma das dimensões do chamado agenda-setting: a imprensa não precisa dizer ao público o que pensar para influenciar a opinião pública, muitas vezes basta definir sobre o que o público será levado a pensar.

Foi exatamente isso que me incomodou na sabatina. Eu queria ouvir mais sobre o Brasil, sobre soberania, riquezas estratégicas, terras raras, desenvolvimento, política externa, desafios econômicos e sociais. Queria ouvir propostas. Queria comparar projetos.

Lula também percebeu a disputa

Na minha leitura, Lula percebeu que havia uma disputa de narrativa em curso. Ao mencionar o Banco Master e questionar o tratamento dado pela imprensa a determinados assuntos ele tentou deslocar o eixo da entrevista. Em seguida trouxe ao debate temas como terras raras, soberania, combate à fome e política econômica.

Pode-se concordar ou discordar das respostas, mas, do ponto de vista da comunicação política, foi uma tentativa clara de retomar o controle da agenda. E isso revela algo importante: entrevistas eleitorais também são espaços de disputa simbólica. O jornalista pergunta, o político responde, mas ambos estão disputando a interpretação da realidade.

Minha posição como jornalista

Não quero uma imprensa que proteja Lula, também não quero uma imprensa que proteja Bolsonaro ou qualquer outro político. Quero uma imprensa que incomode o poder, que investigue todos, que confronte todos, que cobre todos com o mesmo rigor, independentemente do personagem.

Não acredito em jornalismo que transforma suspeita em sentença. Não acredito em jornalismo baseado em culpa por associação. E não acredito que o eleitor brasileiro deva ser tratado como alguém incapaz de compreender a complexidade dos fatos. O cidadão merece informação, não condução.

O Brasil é maior que a disputa familiar

Minha crítica à sabatina não é uma defesa pessoal de Lula, é uma defesa do jornalismo que considero necessário para o Brasil. 

Uma eleição presidencial precisa discutir projetos de país. Precisamos debater soberania, democracia, economia, saúde, educação, emprego, desenvolvimento, política externa e o papel do Brasil no mundo. Precisamos perguntar aos candidatos o que pretendem fazer com o país.

Se existe denúncia contra alguém, que se investigue, se existe prova, que se responsabilize, mas não podemos permitir que a política nacional seja reduzida a suspeitas, sobrenomes e narrativas familiares.

Como jornalista, minha pergunta final é simples: o eleitor saiu daquela sabatina conhecendo melhor o projeto de país de Lula ou apenas recebeu mais elementos para formar uma opinião sobre seu entorno familiar?

Essa é a questão. Porque uma sabatina presidencial não deveria funcionar como tribunal, deveria ser instrumento de informação pública. E, quando se trata do futuro de mais de 200 milhões de brasileiros, prefiro perguntas difíceis, mas grandes. Perguntas sobre o Brasil.

No Alvo com Chico Zé 

— Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia, da geopolítica e do desenvolvimento do Brasil.