Da promessa de moralização da política às sucessivas crises institucionais, uma análise crítica sobre as contradições do bolsonarismo, os desafios à democracia e a defesa da soberania nacional.
Por Francisco José de Oliveira (Chico Zé)
A história costuma revelar, com o passar do tempo, a distância entre o discurso e a prática. Na política brasileira contemporânea poucos movimentos expressam essa contradição de forma tão evidente quanto o bolsonarismo.
A investigação conduzida pela Polícia Federal sobre a suposta participação do presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, em um esquema de desvio de R$ 119 milhões provenientes de emendas parlamentares representa mais um episódio que recoloca em debate a ética na gestão dos recursos públicos e a coerência de um grupo político que chegou ao poder prometendo combater a corrupção.
Segundo decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), Valdemar Costa Neto é investigado por suspeitas de desvio de recursos públicos e associação criminosa no âmbito da Operação Transparência. Como estabelece a Constituição Federal, toda investigação deve respeitar o devido processo legal, a ampla defesa, o contraditório e a presunção de inocência. Entretanto, limitar essa discussão ao caso específico seria ignorar um fenômeno político muito mais amplo.
O Partido Liberal tornou-se o principal abrigo institucional do bolsonarismo e, consequentemente, passou a concentrar parte significativa das disputas políticas que marcaram o país nos últimos anos. Diversas lideranças vinculadas ao partido ou ao campo bolsonarista respondem ou responderam a investigações e processos envolvendo suspeitas de uso irregular de recursos públicos, disseminação de desinformação, ataques ao sistema eleitoral, financiamento de atos antidemocráticos, tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e outros fatos submetidos à apuração da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal.
Evidentemente, cada procedimento possui objeto próprio e deverá ser decidido pelo Poder Judiciário, respeitando-se integralmente as garantias constitucionais dos investigados. Ainda assim, o conjunto desses episódios produz um desgaste político que contrasta frontalmente com o discurso de moralização da vida pública que marcou a ascensão desse campo político. Essa constatação não decorre de uma disputa ideológica, mas da observação dos fatos produzidos pelas próprias instituições da República.
Ao mesmo tempo em que importantes lideranças bolsonaristas passaram a figurar em investigações conduzidas pelos órgãos de controle, consolidou-se uma estratégia permanente de deslegitimação das instituições democráticas. O Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, a Polícia Federal, o Ministério Público, o Congresso Nacional e até a imprensa profissional passaram a ser tratados como adversários políticos sempre que suas decisões contrariavam os interesses desse grupo.
Na Ciência Política esse comportamento é frequentemente associado aos processos de erosão democrática. Não se trata necessariamente da ruptura imediata da ordem constitucional, mas do enfraquecimento gradual da confiança da sociedade nas instituições encarregadas de garantir o equilíbrio entre os Poderes, proteger direitos fundamentais e assegurar a estabilidade do Estado Democrático de Direito.
Outro aspecto que merece atenção é a crescente internacionalização da disputa política brasileira. Nos últimos anos setores ligados ao bolsonarismo passaram a buscar apoio junto a agentes políticos estrangeiros para pressionar instituições nacionais e constranger o governo legitimamente eleito. Em determinadas circunstâncias houve manifestações favoráveis a iniciativas externas capazes de produzir efeitos negativos sobre a economia brasileira atingindo exportações, investimentos e empregos. Sob qualquer perspectiva republicana, trata-se de uma postura preocupante.
A oposição constitui elemento indispensável à democracia. Fiscalizar governos, denunciar irregularidades e apresentar alternativas faz parte do funcionamento saudável das instituições. O que não fortalece a democracia é transformar a instabilidade institucional em método de ação política ou admitir que interesses externos sejam utilizados como instrumento de pressão sobre decisões que pertencem exclusivamente ao Estado brasileiro.
O patriotismo não pode ser reduzido ao uso de símbolos nacionais, discursos inflamados ou palavras de ordem. Patriotismo significa defender a soberania nacional, preservar a economia, fortalecer as instituições republicanas e proteger os interesses permanentes da população brasileira.
Nesse contexto, as investigações envolvendo emendas parlamentares também recolocam em pauta a discussão fundamental da necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de transparência, controle e fiscalização da execução orçamentária.
As emendas parlamentares constituem instrumentos legítimos da representação política, mas somente cumprem sua função constitucional quando administradas com critérios técnicos, publicidade, rastreabilidade e responsabilidade. Havendo indícios de irregularidades, compete aos órgãos de controle investigar com independência, imparcialidade e observância do devido processo legal, sem seletividade e sem qualquer espécie de privilégio.
Nenhum projeto político pode reivindicar para si o monopólio da ética. O combate à corrupção somente possui legitimidade quando alcança todos, independentemente da filiação partidária, da posição ideológica ou do capital político dos envolvidos.
O Brasil atravessa um momento decisivo de sua história democrática. Mais do que disputar eleições, a sociedade precisa decidir que modelo de República pretende consolidar: um Estado orientado pelo respeito às instituições, pela transparência e pela Constituição ou um ambiente de permanente confronto institucional, em que as regras democráticas somente sejam aceitas quando favorecem determinados grupos políticos.
As investigações em andamento terão seu desfecho definido pelo Poder Judiciário, única instância legitimada para estabelecer responsabilidades penais. No plano político, porém, a principal lição é que as democracias sólidas exigem coerência entre discurso e prática, compromisso com a verdade, respeito às instituições e absoluta lealdade aos interesses nacionais.
A história julga governos, partidos e lideranças. Também julga aqueles que, diante dos fatos, optam por relativizar princípios que deveriam ser universais. É justamente por isso que a defesa da democracia, da soberania nacional e da ética pública não pode depender de quem ocupa o poder, deve constituir um compromisso permanente de toda a sociedade brasileira.
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Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal (STF). Decisão do Ministro Flávio Dino na Petição n.º 13.428, referente à Operação Transparência, 2026.
BRASIL. Polícia Federal. Operação Transparência. Brasília, DF, 2026.
CNN BRASIL; FOLHA DE S.PAULO; PODER360. Reportagens sobre a investigação envolvendo o presidente do PL e o suposto desvio de recursos de emendas parlamentares. Acesso em: 10 jul. 2026.
BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. São Paulo: Paz e Terra, 2017.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
DAHL, Robert A. Sobre a Democracia. Brasília: Editora UnB, 2001.
FILGUEIRAS, Fernando. Corrupção, Democracia e Legitimidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.


Comportamento do velho coronelismo, ex deputado, mas agindo como tal inadequadamente