Por Francisco José de Oliveira
Ao observar os acontecimentos recentes da política internacional, especialmente a decisão dos Estados Unidos de ampliar a classificação de grupos criminosos e organizações armadas como entidades terroristas, considero fundamental analisar essa questão para além das justificativas oficiais. Embora o combate ao crime organizado e ao terrorismo seja uma necessidade legítima dos Estados modernos, a experiência histórica demonstra que tais classificações frequentemente produzem efeitos geopolíticos que ultrapassam o campo da segurança pública.
Na minha compreensão, essa estratégia está inserida em um contexto mais amplo de disputa pela manutenção da hegemonia norte-americana em um mundo que atravessa profundas transformações. A ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS, a ampliação de mecanismos financeiros alternativos ao dólar e o surgimento de novos polos de poder desafiam a ordem internacional construída sob a liderança dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.
Historicamente, Washington buscou preservar sua posição de liderança global por meio da combinação entre poder militar, influência diplomática, controle financeiro e capacidade econômica. Desde a Doutrina Monroe, proclamada em 1823, passando pelo Corolário Roosevelt e pela política do Big Stick, a América Latina foi tratada como uma área estratégica para os interesses norte-americanos. Ao longo dos séculos XX e XXI, os métodos mudaram, mas os objetivos centrais permaneceram relativamente constantes: garantir influência política, acesso a mercados, proteção de interesses econômicos e controle sobre regiões consideradas estratégicas.
É nesse contexto que interpreto a ampliação das classificações de organizações terroristas. Quando um grupo recebe essa designação, não apenas se torna alvo de mecanismos de repressão criminal. Abre-se espaço para sanções econômicas, operações de inteligência, monitoramento financeiro internacional, cooperação militar ampliada e, em determinadas circunstâncias, intervenções diretas ou indiretas. Em outras palavras, o conceito de terrorismo passa a operar também como instrumento de política internacional.
A história recente oferece exemplos que merecem reflexão. O caso do Iraque é emblemático. Em 2003, os Estados Unidos lideraram uma intervenção militar sob a alegação de que o governo de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Posteriormente, tais armas jamais foram encontradas. O resultado foi a destruição das estruturas estatais iraquianas, centenas de milhares de mortes e uma profunda reconfiguração geopolítica da região. Paralelamente, não se pode ignorar que o Iraque abriga algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, elemento que permanece no centro dos debates sobre os interesses estratégicos envolvidos naquela guerra.
Situação semelhante pode ser observada na Venezuela. Possuidora de uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, a nação sul-americana enfrenta, há anos, uma combinação de sanções econômicas, isolamento diplomático e intensa pressão internacional. Embora existam problemas políticos e econômicos internos que não podem ser ignorados, também é evidente que a disputa em torno dos recursos energéticos venezuelanos possui relevância estratégica para as grandes potências.
O mesmo padrão pode ser identificado em diferentes momentos da história contemporânea. Da Guatemala, em 1954, ao Chile, em 1973; da Líbia, em 2011, às intervenções no Oriente Médio; dos bloqueios econômicos às operações encobertas de inteligência, observa-se uma recorrência: países detentores de recursos estratégicos ou localizados em áreas geopolíticas relevantes frequentemente se tornam alvos de pressões externas justificadas por argumentos de segurança, democracia ou estabilidade institucional.
Não sustento a tese de que toda ação dos Estados Unidos seja exclusivamente motivada pela busca de riquezas ou pela expansão imperial. As relações internacionais são mais complexas do que explicações simplistas permitem compreender. No entanto, a análise histórica revela que os interesses econômicos, energéticos e geopolíticos costumam caminhar lado a lado com os discursos oficiais utilizados para legitimar determinadas intervenções.
Por essa razão, considero que as recentes decisões norte-americanas devem ser observadas com cautela, especialmente na América Latina. A classificação de organizações criminosas como terroristas pode representar um instrumento legítimo de combate à violência transnacional. Contudo, também pode ampliar mecanismos de influência externa sobre países soberanos, criando novas justificativas para ações que ultrapassam os limites da cooperação internacional tradicional.
Vivemos um período de transição histórica. A ordem unipolar surgida após o fim da Guerra Fria enfrenta desafios crescentes. Novos atores econômicos, novas alianças políticas e novas disputas por recursos naturais estão redesenhando o equilíbrio de poder global. Nesse cenário, a defesa da soberania nacional torna-se um tema central para os países do Sul Global.
Minha interpretação é que o debate contemporâneo sobre terrorismo, segurança e crime organizado não pode ser dissociado da disputa pela hegemonia internacional. Em muitos casos, o que está em jogo não é apenas a segurança dos Estados, mas também o controle de riquezas estratégicas, rotas comerciais, fontes energéticas e áreas de influência política.
A história ensina que as grandes potências raramente abrem mão de seus privilégios sem resistência. Por isso, compreender os movimentos da política externa norte-americana exige olhar para além das narrativas oficiais e examinar os interesses estruturais que moldam as relações de poder no sistema internacional. Somente assim será possível interpretar, de forma crítica e fundamentada, os desafios geopolíticos que marcam o século XXI.
Nota do autor: este artigo baseia-se em literatura crítica das relações internacionais, teoria da dependência e estudos sobre imperialismo contemporâneo, buscando contribuir para o debate sobre soberania, hegemonia e geopolítica no século XXI.
Referências
•Eduardo Galeano. As Veias Abertas da América Latina. L&PM, 2010.
•Noam Chomsky. Hegemonia ou Sobrevivência. Bertrand Brasil, 2004.
•David Harvey. O Novo Imperialismo. Loyola, 2005.
•Moniz Bandeira. Formação do Império Americano. Civilização Brasileira, 2006.
•Theotonio dos Santos. A Teoria da Dependência. Civilização Brasileira, 2000.
•Ruy Mauro Marini. Dialética da Dependência. Vozes, 2000.
•Atilio Boron. América Latina na Geopolítica do Imperialismo. Expressão Popular, 2006.
•Documentos históricos: Doutrina Monroe (1823) e Corolário Roosevelt (1904).
•Relatórios e documentos da United Nations e arquivos desclassificados da Central Intelligence Agency sobre Guatemala, Chile, Iraque e América Latina.

