A RAINHA NÃO TÃO OCULTA DO BOLSONARISMO E O PLANO PARA DOURAR MICHELLE E ENTERRAR FLÁVIO BOLSONARO

O “Enigma Michelle”, o movimento das “Imparáveis” e a antropofagia na “familícia” pelo espólio político da extrema-direita.

por Marcio Dias

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“Pensei que Medusa tivesse olhado para você e que você estivesse se transformando em pedra. Talvez agora você se pergunte quanto vale?” – Charlotte Brontë, no Romance Jane Eyre

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É assim que uma parte da mídia trata a “rainha bolsonarista”. Inclusive, estão rodando uma série com esse título. Outro setor da imprensa já começa a retratá-la como uma figura de ponta da política que não precisa de Bolsonaro e nem do bolsonarismo porque tem “brilho próprio”. Enquanto isso, a direita e parte da extrema-direita preparam o desembarque da candidatura de Flávio “rachadinha”. O que sobrará?

Até que a resposta para essa pergunta seja possível, é preciso fazer uma breve reflexão sobre o momento histórico que estamos vivenciando. A realidade do sistema capitalista mundial é de crise profunda, assim como a do imperialismo americano. São faces de uma mesma moeda. 

A história, no entanto, está repleta de exemplos em que a burguesia, diante de situações como essa, abandona a democracia e recorre à violência para preservar seus privilégios, lucros e poder. No Brasil, isso aconteceu diversas vezes. Em 1964, quando um golpe de Estado impôs uma ditadura militar sanguinária e, mais recentemente, após o bolsonarismo ser derrotado nas urnas, quando tentaram dar um novo golpe de Estado.

A classe dominante, seja aqui ou em qualquer lugar, é capaz de cometer qualquer tipo de crime para se manter no poder. Uma parte da burguesia ainda tenta rebaixar a disputa política ao falso dilema “bolsonarismo contra o lulismo” com objetivos golpistas. Lula e as forças políticas que o apoiam conseguiram organizar a resistência se articulando com os poderes da República, setores dos militares, da própria burguesia nacional e internacional e através dos BRICS. A estratégia também envolve benefícios e concessões aos trabalhadores. 

É preciso considerar, no entanto, que as classes médias e a pequena burguesia, que atravessam grandes dificuldades financeiras, são presas fáceis da extrema-direita porque falta uma alternativa mais avançada no contexto da luta de classes. Num certo sentido, isso explica o avanço da extrema-direita mundo afora.

No Brasil, o avanço desse campo político — composto por legendas como a Federação Progressista (União Brasil e PP), o Partido Liberal e o Republicanos — mostra como esses grupos se dizem defensores da democracia liberal e dominam o pensamento neoliberal, mas se misturam, utilizam o extremismo e apelam para a violência política, fake news, corrupção e outros expedientes quando lhes convém para derrotar a alternativa progressista. Ou então apelam de todas as maneiras para o populismo mais deslavado e escrachado, como estamos vendo agora ao detonarem Flávio Bolsonaro em favor de Michelle Bolsonaro com o “enigma Michelle”.

A crise com Flávio escalou e fez com que Michelle saísse do comando do PL Mulher e avançasse nas articulações junto a candidatas evangélicas no chamado movimento das “Imparáveis”. 

Esse plano oportunista para dourar Michelle Bolsonaro segue sendo desenhado desavergonhadamente e, se de um lado não é consenso no grosso da classe dominante, por outro ganha corpo em setores da burguesia, de veículos de mídia, de evangélicos, de partidos de direita e, claro, da extrema-direita e, talvez, até de círculos militares bolsonaristas. Enquanto isso, ela aguarda um sinal divino para se lançar às urnas para o Senado por Brasília ou, quem sabe, à Presidência da República, se as condições políticas forem favoráveis. Certamente, receberá o apoio dos dissidentes da campanha de Flávio.

Mas vamos aos fatos.

A família Bolsonaro tem uma estrutura de poder onde o pai, a esposa, cada filho, parentes, ex-esposas e amigos exercem um papel estratégico na comunicação, na articulação política,na agressividade da imagem pública e na execução de tarefas. É um ambiente de conflitos internos e disputas por influência onde as tensões são constantes. Destacam-se os ciúmes, a competição por espaço político, as traições e as crises emocionais. Uma mistura de poder político, esquemas de cobrança, operadores diversos, contabilidade paralela e pressão sobre os envolvidos.

A condenação e prisão de Jair Bolsonaro resultou na sua perda de influência, isolamento político e dependência de familiares e aliados, abrindo espaços para o acirramento de todos os tipos de disputas pelo poder, quer seja na família ou nos grupos bolsonaristas de uma forma geral. 

Essa situação se agravou desde quando Flávio foi ungido pelo pai como seu primeiro herdeiro político e candidato à Presidência da República. O ninho bolsonarista tornou-se um barril de pólvora. Para piorar, o sumiço de parte dos 160 milhões de reais que seriam “doados” por Daniel Vorcaro para supostamente financiar o filme Dark Horse agravou o clima e a selvageria correu solta entre eles. Como uma novela ao estilo mafioso, eles entraram no modo de antropofagia.

Porém, a mente das criaturas da “familícia” Bolsonaro é ainda mais asquerosa. Eles e ela se digladiam de forma cruel e pública com constantes traições, golpes financeiros e rasteiras emocionais, tudo para herdar o império político e o sistema do bolsonarismo para, dessa forma, controlar o dinheiro. O que importa é o vale-tudo. 

Desde o lançamento de Flávio pelo pai como seu herdeiro político, Michelle e seu grupo se mostraram insatisfeitos. As reações foram diversas: desde uma postura de alheamento à campanha de Flávio até os acontecimentos mais recentes, quando ela o detonou em um vídeo que, segundo comentários de articulistas políticos, teria inclusive o dedo do próprio ex-presidente e de vários de seus fiéis seguidores. Mas ela jura que permanece fiel ao marido, a quem diz ter a “missão” de cuidar. 

Michelle, em muitas ocasiões povoou os noticiários com reportagens sobre suas atividades com o famoso Queiróz que, aliás, anda bastante sumido. Segundo comentários, foi uma das vozes mais radicais a favor do golpe do 8 de Janeiro. Mas, não se fez de rogada e, recentemente, passou a assumir uma postura branda. 

Amenizou o discurso extremista para dar um verniz democrático e se apresentou como uma mulher vítima do machismo de Flávio, acenando com a bandeira de luta das mulheres com o carimbo de evangélica e, inclusive, acenando com um certo “discurso progressista” ao reconhecer como positivas algumas medidas de proteção às mulheres, promovidas pelo governo do presidente Lula. Ela e suas seguidoras.

Mas é preciso mais. É preciso algo que gere comoção e sentimento de pena dos eleitores de Bolsonaro, cujo espólio ela quer disputar. Ao arquitetar uma desobediência deliberada do marido durante a prisão domiciliar, o plano pretendia levá-lo de volta à Papuda, o que seria um prato cheio para seus planos. O momento do retorno dele à prisão seria ideal para ela declarar que esse era um sinal de “Deus” para que ela se “levante” em defesa da família, da liberdade e do Brasil, contra as maldades cometidas contra seu marido e contra as mulheres, alegando que estava sendo agredida por Flávio.

Paralelamente a tudo isso, parte da mídia vem tentando construir uma nova imagem de Michelle. Alguma coisa de difícil compreensão e que desafia a inteligência para ser decifrada. Uma figura enigmática, pronta para se tornar uma nova mito na política pós-bolsonarista. E então, será que o cenário está preparado para ela ser lançada como substituta do Flávio “rachadinha” como candidata à Presidência? Isso tudo pode até ser uma viagem, mas faz sentido. Está tudo acontecendo e você pode acompanhar na tela do celular. Veremos até onde isso vai dar.