Reflexões sobre a obra de Eric Hobsbawm e seus impactos no mundo contemporâneo
Francisco José (Chico Zé)
O presente artigo analisa a tese central da obra A Era das Revoluções (1962), do historiador britânico Eric Hobsbawm, que compreende o período de 1789 a 1848. Argumenta-se que a Revolução Francesa e a Revolução Industrial Britânica, atuando em conjunto, constituíram a maior ruptura da história humana desde a invenção da agricultura, sendo responsáveis pela formação das estruturas políticas, econômicas e ideológicas do mundo moderno. O artigo examina, ainda, os reflexos da chamada dupla revolução no Brasil, com ênfase nos processos de independência e abolição da escravidão.
PALAVRAS-CHAVE: Hobsbawm. Revolução Francesa. Revolução Industrial. Dupla Revolução. História Moderna. Brasil.
1 INTRODUÇÃO
Em 1789, a França guilhotinava reis e proclamava os direitos do homem. No mesmo momento, do outro lado do Canal da Mancha, a Inglaterra erguia as primeiras fábricas do mundo moderno e expulsava camponeses de suas terras para alimentar de mão de obra as máquinas a vapor. Duas revoluções. Dois países. Um único efeito que ainda não terminou.
É essa a premissa que estrutura A Era das Revoluções, obra publicada em 1962 pelo historiador britânico Eric Hobsbawm. O livro analisa o período compreendido entre 1789 e 1848 e apresenta uma das teses mais influentes da historiografia do século XX: a política e a ideologia do mundo oitocentista foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa, enquanto sua economia foi moldada pela Revolução Industrial Britânica. Sozinhas, cada uma teria sido transformadora. Juntas, constituíram a maior ruptura da história humana desde a invenção da agricultura (HOBSBAWM, 2014).
O objetivo deste artigo é apresentar, de forma sistematizada, as teses centrais da obra de Hobsbawm, examinar o conceito de dupla revolução e suas consequências para o vocabulário e a estrutura do mundo moderno, e, por fim, discutir os reflexos desse processo histórico no contexto brasileiro.
2 A DUPLA REVOLUÇÃO E O VOCABULÁRIO DO MUNDO MODERNO
Hobsbawm delimita o período analisado com precisão. Começa com a construção do primeiro sistema fabril do mundo moderno, em Lancashire, e com a Revolução Francesa de 1789 e termina com a implantação da primeira grande rede ferroviária e com a publicação do Manifesto Comunista, em 1848. A escolha dessas balizas não é arbitrária, ela revela uma lógica interna de causas e consequências.
Uma das contribuições mais contundentes desse período foi, paradoxalmente, linguística. Palavras como capitalismo, socialismo e proletariado surgiram entre 1789 e 1848 para descrever conceitos e realidades que ainda hoje estruturam o debate político e econômico global. Conforme aponta Hobsbawm (2014, p. 17), “o vocabulário com que compreendemos o mundo nasceu ali, forjado entre barricadas parisienses e fumaça de carvão inglês”.
O período histórico em questão corresponde, portanto, não apenas a uma transformação nas relações de produção e nas estruturas de poder, mas à formação dos próprios instrumentos conceituais com os quais a humanidade passou a interpretar sua experiência coletiva.
3 A LÓGICA INTERNA DA HISTÓRIA: CAPITALISMO E MARXISMO
O argumento mais perturbador de Hobsbawm reside em uma contradição que ele recusa chamar de irônica, preferindo defini-la como a lógica mais precisa da história.
Segundo o autor, “A Revolução Industrial criou o proletariado, o proletariado criou o marxismo, o marxismo prometeu destruir o capitalismo. A mesma revolução que construiu o mundo moderno gerou dentro de si a ideologia que queria derrubá-lo. Não é a ironia da história, é a sua lógica mais precisa.” (HOBSBAWM, 2014, p. 289)
Essa formulação coloca o leitor diante de uma questão fundamental, o capitalismo industrial não apenas transformou as condições materiais de existência, mas produziu, como consequência necessária de seu próprio funcionamento, as condições intelectuais e sociais para sua contestação. O sistema que explora cria os explorados; os explorados, ao tomarem consciência de sua condição, produzem a crítica ao sistema. Hobsbawm não apresenta isso como tragédia nem como triunfo, o como o mecanismo interno da modernidade.
4 OS REFLEXOS DA DUPLA REVOLUÇÃO NO BRASIL
A dupla revolução não ficou confinada à Europa. Ela chegou ao Brasil como pressão externa e moldou três momentos definidores de nossa formação nacional: a Independência, a Abolição e a República.
A Revolução Francesa exportou a ideia de que os povos têm o direito inalienável de se autogovernar, princípio que alimentou as elites ilustradas brasileiras e conferiu linguagem política às aspirações de separação de Portugal.
A Revolução Industrial, por sua vez, produziu um efeito menos óbvio, porém igualmente decisivo, criou a demanda inglesa pelo fim do tráfico de escravos.
A escravidão era estruturalmente incompatível com a lógica do mercado livre e do trabalho assalariado: o trabalhador escravo não consome produtos industrializados; o trabalhador livre, sim. O Brasil aboliu a escravidão em 1888 não apenas por pressão moral ou humanitária, mas porque, como demonstra a lógica econômica descrita por Hobsbawm (2014), o escravismo tornara-se incompatível com o mundo que estava sendo construído ao redor.
Conforme observa Costa (1999, p. 341), “a abolição foi menos o resultado de uma consciência humanitária do que da irresistível pressão das forças econômicas internacionais sobre uma estrutura produtiva anacrônica”.
Compreender Hobsbawm, portanto, não é exercício de erudição europeia. É condição para entender por que o Brasil é o que é, as tensões de nossa modernidade periférica, a natureza tardia e tutelada de nossas transformações, a persistência de estruturas que deveriam ter sido superadas quando o restante do mundo as superou.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Hobsbawm afirmava que seu leitor ideal não é aquele movido pela curiosidade sobre o passado, mas aquele que quer compreender como o mundo veio a ser o que é. Essa distinção importa. A história, nessa perspectiva, não é contemplação do que passou, é instrumento de inteligibilidade do presente.
A resposta para a arquitetura do mundo contemporâneo começa em duas revoluções, em dois países, em sessenta anos de transformação acelerada. O capitalismo que nasceu em Lancashire ainda organiza a produção global. Os direitos proclamados em Paris ainda são reivindicados, e negados, em todas as latitudes.
O marxismo que emergiu como reação à exploração industrial ainda habita os debates políticos do século XXI. A Era das Revoluções não é história encerrada, é o capítulo que ainda estamos vivendo.
REFERÊNCIAS
HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções: 1789–1848. Tradução de Maria Tereza Lopes Teixeira e Marcos Penchel. 25. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.
COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. 4. ed. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Tradução de Álvaro Pina. São Paulo: Boitempo, 2010.
THOMPSON, Edward P. A Formação da Classe Operária Inglesa. Tradução de Denise Bottmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004. v. 1.


Excelente artigo. Marcado por conexão e coerência histórica, clareza de ideias e sustentado em uma referência teórica memorável: Eric Hobsbawm. Parabéns Chico Zé!
Que beleza meu amigo, Márcio Dias de grandes Lutas. Vamos produzir sobre outros temas e pesadores. Conto com artigos e análise suas e de amigos.