O papel da Categoria Petroleira na disputa eleitoral de 2026
por Márcio Dias
“As épocas de transição redefinem não apenas as disputas e a correlação de forças entre as nações, mas também o papel estratégico dos recursos naturais, da tecnologia e da luta dos trabalhadores e trabalhadoras no enfrentamento da luta de classes e na construção dos projetos nacionais de desenvolvimento.”- O Autor
Há muito tempo os intelectuais, movimentos sindicais e organizações políticas analisam a crise estrutural do imperialismo e da ordem internacional constituída após o fim da Guerra Fria. Contudo, poucas vezes a geopolítica global colocou os países do Sul Global frente a frente contra a agressividade do imperialismo e do Norte Global em crise, especialmente diante da ascensão dos BRICS.
As potências hegemônicas reagem e travam, neste momento, uma disputa feroz pela redefinição do sistema financeiro mundial, pela corrida tecnológica e armamentista e pelo controle das cadeias produtivas e de suprimentos globais. Paralelamente, a disputa por recursos estratégicos recoloca a indústria do petróleo, os minerais críticos e as matrizes energéticas renováveis no centro das decisões geopolíticas na nova ordem mundial e na divisão internacional do trabalho.
Vivemos, portanto, uma conjuntura complexa, cujos impactos mais dramáticos apontam para a fragilização da hegemonia ocidental, marcada pela perda de controle dos EUA e da Europa e pela desdolarização da economia mundial. Trata-se de um processo de mudanças, crescente instabilidade e acirramento das contradições entre o bloco liderado pelos EUA e o bloco dos BRICS, cuja projeção internacional tem sido fortemente impulsionada pela China. Nesse contexto, novas alianças políticas, econômicas, tecnológicas e militares ganham forma, apontando para uma nova ordem mundial.
Neste cenário, o imperialismo tenta desesperadamente impedir a transição de poder da antiga ordem unipolar para a nova ordem multipolar, desencadeando conflitos que expressam os sintomas mais violentos dessa crise estrutural. A guerra na Ucrânia, o cerco e o genocídio impostos à Palestina e ao Líbano, a escalada da ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irã no Oriente Médio, bem como as permanentes agressões econômicas e políticas contra Cuba e Venezuela evidenciam o caráter violento dessa reconfiguração global.
O Brasil também é alvo dessa ofensiva, justamente porque, ao fortalecer sua posição e aprofundar as relações com os BRICS, começa a recuperar sua capacidade de planejamento estatal e a impulsionar as forças produtivas internas. Esse movimento confronta a lógica de dependência que historicamente determinou nossa inserção subordinada no sistema capitalista, no qual a burguesia local, incapaz de articular um projeto autônomo de desenvolvimento, busca transferir os custos da crise de acumulação interna por meio de atalhos golpistas, coerentes com seu caráter entreguista.
No Congresso Nacional os representantes da burguesia impõem uma ditadura orçamentária para bloquear avanços na soberania nacional e nos direitos do povo trabalhador, assegurando os lucros do capital financeiro, da tecnocracia digital e de setores ligados às Big Techs, às plataformas de apostas e aos monopólios midiáticos. Com o controle do parlamento essas forças se articulam ao núcleo bolsonarista derrotado em 2022, cuja tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 revelou uma ofensiva que segue ativa para desestabilizar o governo Lula e disputar o aparato estatal.
A palavra de ordem “Sem Anistia” permanece essencial para impedir a impunidade dos golpistas. Apesar da resistência, os movimentos sociais e as forças democráticas enfrentam dificuldades de mobilização, o que limita a capacidade da classe trabalhadora de conter a ofensiva do capital e construir uma alternativa mais avançada para o país.
Apesar dos desafios, o governo Lula retomou políticas sociais, reativou parte da indústria, fortaleceu o Estado e recolocou o Brasil no centro da política internacional. Enfrenta, porém, a herança do Banco Central marcada por crises artificiais produzidas no governo anterior por meio de juros abusivos, especulação cambial e mecanismos fiscais regressivos. A antiga direção do Banco Central atuou como facilitadora de escândalos financeiros, deixando uma armadilha a serviço das forças do mercado interessadas na derrota do governo Lula.
O SINDIPETRO-RN vem realizando esse debate em suas instâncias deliberativas, evidenciando o esgotamento do modelo de acumulação baseado na financeirização, na concentração da riqueza e na expropriação violenta da periferia global. Esse cenário se torna ainda mais incerto com a introdução de novas tecnologias, como a inteligência artificial, utilizadas pelo capital para ampliar a exploração do trabalho e suas taxas de lucro. Paralelamente, o bloco imperialista ocidental (EUA e Europa) enfrenta a decadência de sua hegemonia ideológica e bélica, mergulhado em visível isolamento internacional.
É nesse contexto de profundas transformações internacionais e intensa disputa pelos rumos da riqueza social que a Federação Única dos Petroleiros (FUP) realiza, de 20 a 24 de julho de 2026, em Salvador (BA), seu XX Congresso Nacional dos Petroleiros e Petroleiras (XX CONFUP) sob o lema “Brasil Soberano – Energia para um Mundo Melhor”. Mais que um encontro da categoria, o Congresso ocorre em um momento em que a soberania nacional, especialmente a soberania energética, ganha destaque como um dos pilares da afirmação da identidade e do desenvolvimento do país.
O Congresso também elegeu a nova direção da FUP para o triênio 2026-2029 e debate temas de grande relevância para a categoria, entre eles a conjuntura internacional e nacional, a reestatização de empresas estratégicas privatizadas nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro e o fortalecimento da Petrobrás como instrumento fundamental para a soberania energética e o desenvolvimento nacional.
Os petroleiros e petroleiras potiguares integram esse processo histórico com uma delegação eleita no 41º Congresso Estadual (CEPETRO-RN), além de observadores e convidados. Junto às demais organizações filiadas à FUP, nossos representantes participam do Congresso com a responsabilidade de construir a resistência para reeleger o presidente Lula, ampliar a bancada progressista e derrotar a extrema direita e seus aliados no Brasil e no exterior. Também cabe discutir os equacionamentos da Petros, a violência contra as mulheres, deliberar sobre pautas específicas da categoria e lutar por investimentos no setor privado e estatal.
Como vimos, as discussões no XX CONFUP e no CEPETRO-RN ultrapassam o corporativismo e o economicismo. O ambiente geopolítico e as mudanças em curso exigem articular as conjunturas nacional e internacional para compreender a totalidade desses cenários, onde economia, política, cultura, meio ambiente e ideologia se integram na dinâmica da luta de classes como condição indispensável para definir táticas e estratégias diante da nova ordem mundial e dos desafios políticos de 2026.
O Brasil está inserido nesse contexto: uma conjuntura difícil, mas cheia de possibilidades históricas. Para enfrentá-la é imprescindível conclamar a unidade das organizações de esquerda e centro-esquerda, dos democratas, dos movimentos sociais e populares, da juventude e do movimento sindical, unificando as lutas em defesa da soberania e dos investimentos estatais estratégicos para derrotar a extrema direita e avançar com as mudanças no país.
A categoria petroleira assume, portanto, papel destacado na luta por fortalecer a Petrobrás como empresa estatal e integrada, contribuindo para a economia nacional e combatendo a dependência e a subordinação do desenvolvimento brasileiro aos interesses do capital internacional. Por isso, a luta pela reestatização das refinarias e outros ativos privatizados, pela recomposição dos investimentos públicos e pela valorização do trabalho é parte indissociável da luta pela soberania nacional. A independência energética garante a autodeterminação política e territorial, consolidando trabalhadoras, trabalhadores, aposentados e pensionistas como sujeitos históricos nas disputas fundamentais da sociedade.
Por fim, o XX CONFUP deve afirmar que a defesa da Petrobrás e da soberania energética é inseparável da luta pelos direitos sociais, pelo desenvolvimento nacional e pela disputa institucional por pautas avançadas como parte essencial da luta de classes para que o Brasil possa avançar.
O movimento sindical petroleiro precisa compreender que não há vitória na fragmentação da sua unidade. A reconstrução da unidade da categoria é condição política fundamental para enfrentar os grandes desafios do horizonte histórico para contribuir na luta para avançar na construção de um projeto nacional de desenvolvimento soberano e ambientalmente responsável, ou, então, podemos estar sendo omissos e arrastados de volta ao ciclo de dependência, privatizações e autoritarismo.
Petroleiros e petroleiras: luta e resistência em defesa do Brasil! Viva a democracia! Viva a soberania! Viva a unidade da categoria petroleira! Viva o povo brasileiro! Viva Lula presidente!
—Texto colaborativo de terceiros.
No Alvo com Chico Zé — Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia, da geopolítica e do desenvolvimento do Brasil.

