A crise enfrentada por Cuba vai muito além dos apagões, da falta de combustível ou das dificuldades econômicas que chegam ao noticiário internacional. O que ocorre atualmente na ilha caribenha é o aprofundamento de uma política histórica de pressão econômica, diplomática e financeira liderada pelos Estados Unidos, especialmente intensificada durante o governo de Donald Trump.
Recentemente conversei com um amigo que esteve em Cuba. O relato que ouvi foi inquietante. Segundo ele, é impossível compreender plenamente, à distância, a dimensão da crise humanitária e estrutural vivida pelo povo cubano. Não se trata apenas da escassez de combustível ou da crise energética. Existe hoje um cerco internacional silencioso, mas extremamente duro em seus efeitos econômicos e sociais.
Nos últimos anos, Washington ampliou sanções, endureceu mecanismos de fiscalização e passou a perseguir embarcações ligadas ao transporte de petróleo destinado à ilha, especialmente cargas provenientes da Venezuela. Em diversos episódios recentes, navios foram interceptados, empresas sofreram punições e instituições financeiras passaram a evitar qualquer operação relacionada a Cuba.
Na prática criou-se um ambiente internacional de medo e insegurança econômica. Companhias marítimas evitam transportar combustível para Havana, bancos recusam transações financeiras, seguradoras suspendem contratos. Países que cogitam comercializar petróleo, alimentos ou medicamentos com Cuba sabem que podem enfrentar represálias econômicas dos Estados Unidos. O bloqueio, portanto, deixou de atingir apenas os cubanos e passou também a intimidar qualquer nação ou empresa disposta a colaborar com a ilha.
Historicamente, o embargo econômico imposto a Cuba desde 1962 consolidou-se como um dos mais longos e severos mecanismos de sanção da história contemporânea. Seu objetivo sempre foi pressionar politicamente o regime surgido após a Revolução Cubana de 1959, liderada por Fidel Castro. Ao longo das décadas, porém, o bloqueio adquiriu caráter extraterritorial, atingindo empresas, bancos e governos de diferentes países, ampliando ainda mais os impactos sobre a população civil.
A atual crise revela também uma dimensão geopolítica mais ampla. Cuba tornou-se símbolo da disputa entre soberania nacional e hegemonia global. A mensagem enviada ao mundo é clara: países que desafiem determinados interesses estratégicos podem sofrer isolamento financeiro, bloqueios comerciais e forte pressão diplomática.
Nesse contexto, surge uma pergunta recorrente no Brasil: por que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não amplia o apoio direto a Cuba? A resposta exige maturidade política e compreensão das limitações impostas pelo cenário internacional. O Brasil não possui o mesmo peso militar, econômico e estratégico de potências como China ou Rússia para enfrentar diretamente os interesses norte-americanos sem consequências diplomáticas e econômicas significativas.
Isso não significa omissão, mas sim a necessidade de equilíbrio em um mundo ainda profundamente marcado pela desigualdade de poder entre as nações. O debate sobre Cuba precisa ser conduzido com responsabilidade, seriedade e humanidade, longe das simplificações ideológicas e dos discursos rasos que dominam parte das redes sociais.
Mais do que uma discussão sobre um único país, o caso cubano nos obriga a refletir sobre soberania, autodeterminação dos povos e o direito das nações de decidirem seus próprios caminhos sem viverem permanentemente sob ameaça econômica externa.
O que está em jogo não é apenas o futuro de Cuba. O que está em debate é o próprio direito dos povos à independência, à dignidade e à liberdade de construir seus destinos sem sofrerem estrangulamento político e econômico imposto por grandes potências internacionais.
Por: Francisco José de Oliveira
⁃ Cientista Social


Excelente artigo Chico Zé! Clareza de ideias, fluidez e m muita lucidez. Acrescento apenas uma contribuição. O Brasil, mesmo com limitações, tem ajudado, e muito, na campanha de solidariedade à Cuba.
Muito bom bom Chico Zé. Parabéns pela excelente iniciativa. ‘No Alvo com Chico Zé’, além de criativo é de alto nível político com análises fundamentadas👍🏾