O Brasil não precisa recuperar Neymar, precisa recuperar a capacidade de construir uma Seleção à altura de sua própria história.
Por Francisco José de Oliveira
A vitória do Brasil por 3 a 0 sobre o Haiti foi suficiente para alimentar manchetes otimistas e discursos triunfalistas. Contudo, convenhamos que vencer uma seleção tecnicamente limitada não transforma uma equipe irregular e
candidata ao título mundial. Os problemas da Seleção Brasileira são muito mais profundos do que os placares sugerem.
O Brasil construiu uma trajetória singular na história do futebol. Somos a única seleção presente em todas as edições da Copa do Mundo e a maior campeã da competição com cinco títulos conquistados por gerações extraordinárias de jogadores. Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho não foram apenas craques, tornaram-se símbolos de um futebol capaz de combinar talento individual, organização coletiva e personalidade competitiva.
Hoje, entretanto, a realidade é distinta.
A convocação de Neymar para a Copa do Mundo, mesmo em processo de recuperação física, trouxe à tona uma questão que muitos evitam enfrentar: por que uma seleção pentacampeã ainda depende tanto de um único jogador para sustentar suas expectativas? Não se trata de negar a qualidade técnica de jogador, seu talento é inquestionável. O problema reside no significado que sua convocação assume dentro do atual contexto do futebol brasileiro.
Historicamente, as Copas do Mundo são disputadas por atletas preparados para competir em seu mais alto nível de rendimento. Convocar um jogador ainda em recuperação médica não é algo comum. Por essa razão, a decisão gerou debates dentro e fora do ambiente esportivo.
As especulações sobre supostas pressões de patrocinadores e interesses comerciais surgiram rapidamente. Áudios, mensagens e teorias passaram a circular nas redes sociais alimentando a narrativa de que o chamado “Neymarketing” teria exercido maior influência do que critérios estritamente técnicos. Até o momento, contudo, não há qualquer prova concreta que confirme tais acusações. O que existe é o fato objetivo de que Neymar é uma das maiores marcas do esporte mundial e sua presença gera visibilidade, audiência e receitas milionárias.
Todavia, a verdadeira discussão não deveria se limitar a esse aspecto.
A questão central é a fragilidade estrutural do futebol brasileiro. O país que revelou sucessivas gerações de craques parece enfrentar dificuldades para renovar suas lideranças esportivas com a mesma intensidade de outrora. O resultado é uma dependência excessiva de figuras individuais, como se o talento de um único jogador pudesse compensar deficiências coletivas, falhas de planejamento e a ausência de um projeto consistente para a Seleção Brasileira.
O traumático 7 a 1 diante da Alemanha, na Copa do Mundo de 2014, não foi um episódio isolado, foi um alerta contundente acerca de problemas que continuam presentes. Desde então o Brasil acumulou eliminações frustrantes, mudanças de comando técnico e expectativas reiteradamente depositadas em soluções individuais.
A vitória sobre o Haiti não altera essa realidade. Tampouco a presença de Neymar, por si só, será capaz de solucionar as limitações de uma equipe que ainda busca identidade, equilíbrio e protagonismo no cenário internacional.
O futebol brasileiro precisa reencontrar sua capacidade de formar equipes sólidas e competitivas, e não apenas produzir celebridades esportivas. Nenhuma seleção conquista uma Copa do Mundo sustentada exclusivamente pela imagem de um jogador, por mais talentoso que ele seja.
A grande questão não é se Neymar deveria ou não ter sido convocado. A questão fundamental é compreender por que, em pleno século XXI, a maior seleção da história do futebol ainda parece acreditar que um único craque pode resolver problemas que são, em essência, estruturais.
Quando uma potência do futebol mundial deposita suas esperanças na recuperação física de um atleta o problema já deixou de ser individual. O problema está no modelo.
Referências
- Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Brasil nas Copas: 2002, pentacampeão com maestria.
- FIFA. Neymar na Seleção: rumo à quarta Copa do Mundo.
- UOL Esporte. Seleção convoca Neymar em recuperação física para a Copa do Mundo.
- GE Globo. Histórico das convocações da Seleção Brasileira em Copas do Mundo.
- GALEANO, Eduardo. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM.
- HELAL, Ronaldo; GORDON JR., Cesar. A Pátria de Chuteiras: Futebol e Identidade Nacional.
WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


Além da influência das ações egoistas dos patrocinadores que desequilibram a harmonia do time, temos uma mudança de perfil dos jogadores. Os altos salários refletem posturas inadequadas, muitas vezes, que chegam a impactar no desempenho e até a duração da carreira profissional.
Quais os produtos anunciados comercialmente por Pele?
Quais os produtos anunciados pelos craques de hoje?
É uma longa discussão…
Uma pura verdade, companheiro!