Patriotismo de conveniência: quando a extrema direita abandona o Brasil para atacar sua democracia

A recomendação de expulsão de Eduardo Bolsonaro da Polícia Federal expõe as contradições de um projeto político que confundiu nacionalismo com propaganda e patriotismo com conveniência.

Por Francisco José de Oliveira (Chico Zé)

A recomendação da Polícia Federal pela demissão de Eduardo Bolsonaro do cargo de escrivão em razão da conclusão de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) por abandono de cargo, vai muito além de um procedimento administrativo. O episódio possui forte significado político e institucional, pois evidencia as contradições do bolsonarismo e reafirma princípios fundamentais do Estado Democrático de Direito.

A decisão definitiva ainda depende de homologação pelo ministro da Justiça. Ainda assim, o próprio andamento do processo reforça um princípio básico da República: nenhum servidor público está acima da lei. Cargos públicos pertencem ao Estado e à sociedade, jamais aos interesses particulares de quem os ocupa.

O aspecto mais emblemático desse episódio, porém, é político. Eduardo Bolsonaro escolheu fixar residência permanente nos Estados Unidos, onde obteve o Green Card, documento que lhe garante o direito de viver no país por tempo indeterminado. Ao mesmo tempo, passou a utilizar o território norte-americano como plataforma para atacar instituições brasileiras, especialmente o Supremo Tribunal Federal, chegando a classificar os Estados Unidos como um suposto “farol da democracia”.

A contradição é evidente. Durante anos, o bolsonarismo apropriou-se da bandeira nacional, do hino e dos símbolos da República como se fossem patrimônio exclusivo de um grupo político. No entanto, quando confrontado pelo funcionamento das instituições democráticas brasileiras passou a buscar apoio político no exterior para contestar decisões tomadas dentro da ordem constitucional.

Esse comportamento revela um patriotismo de conveniência. 

O nacionalismo exaltado nos discursos desaparece quando interesses particulares entram em conflito com as instituições republicanas. Defender o Brasil deixa de ser prioridade quando a estratégia passa a ser desacreditar sua Justiça perante governos estrangeiros.

Sob a perspectiva histórica, esse comportamento não constitui novidade. Em diferentes momentos, setores conservadores recorreram ao apoio externo para sustentar seus projetos de poder. O golpe civil-militar de 1964 contou com respaldo político e logístico dos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria. Embora os contextos sejam distintos, permanece atual a reflexão sobre os riscos de internacionalizar disputas internas e relativizar a soberania nacional em função de interesses políticos.

É legítimo que existam divergências em relação às decisões do Supremo Tribunal Federal. Isso faz parte da dinâmica de qualquer democracia. O que enfraquece o Estado Democrático de Direito é transformar conflitos institucionais em campanhas internacionais voltadas a descredibilizar o próprio país. Democracias sólidas resolvem seus conflitos por meio de suas instituições e não pela intervenção ou tutela de governos estrangeiros.

O episódio também enfraquece a narrativa de perseguição política frequentemente utilizada pelo bolsonarismo. O abandono de cargo é uma infração administrativa prevista na legislação brasileira e sujeita às sanções legais cabíveis, independentemente do nome, da posição política ou da influência do servidor. Esse é justamente o sentido do princípio da impessoalidade, a lei deve valer para todos.

O verdadeiro patriotismo não se mede pelo número de bandeiras agitadas em manifestações nem pelo uso repetitivo do lema “Deus, Pátria e Família”. Patriotismo significa defender a Constituição, fortalecer as instituições democráticas, preservar a soberania nacional e reconhecer que ninguém está acima da lei.

A democracia brasileira não será fortalecida pela proteção de lideranças políticas, mas pela existência de instituições independentes, capazes de investigar, julgar e responsabilizar qualquer cidadão quando houver fundamento legal. É essa igualdade perante a lei que distingue uma República de um regime baseado em privilégios pessoais.

Se a recomendação da Polícia Federal vier a ser homologada, não representará a derrota de um adversário político, mas a reafirmação do princípio republicano de que o serviço público exige responsabilidade, compromisso funcional e respeito às normas que organizam o Estado brasileiro.

Em tempos de intensa polarização, vale recordar uma verdade simples: quem escolhe deixar o país para combater suas instituições perde autoridade para reivindicar o monopólio do patriotismo. O amor à pátria demonstra-se fortalecendo a democracia, respeitando a Constituição e defendendo a soberania nacional, nunca desacreditando o Brasil além de suas fronteiras.

No Alvo com Chico Zé — Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia, da geopolítica e do desenvolvimento do Brasil.

Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Lei nº 8.112/1990 (Regime Jurídico dos Servidores Públicos Civis da União).

Polícia Federal. Processo Administrativo Disciplinar (PAD) sobre Eduardo Bolsonaro.

Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Supremo Tribunal Federal (STF).

Folha de S.PauloPoder360UOL Notícias/ReutersReuters (2026).