QUANDO A FÉ É CAPTURADA PELO PODER

A instrumentalização da religião como mecanismo de manipulação política ameaça a liberdade de consciência e empobrece o debate democrático

Há algo profundamente desonesto quando uma decisão política é apresentada à sociedade como se fosse uma determinação divina.

“Deus me direcionou para ser candidato.”

A frase, isoladamente, pode parecer apenas uma manifestação de fé. Entretanto, quando inserida no contexto de uma disputa eleitoral ela adquire outra dimensão, transforma uma decisão política e individual em uma suposta vontade de Deus.

O candidato poderia simplesmente afirmar: “Eu decidi me candidatar.”

Mas, quando afirma que foi “direcionado por Deus”, cria-se uma relação simbólica de poder extremamente delicada. Afinal, quem questionar sua candidatura poderá ser apresentado não apenas como alguém que discorda de um político, mas como alguém que estaria contrariando a própria vontade divina.

É nesse ponto que a fé deixa de ser apenas uma expressão de consciência individual e passa a ser utilizada como instrumento de legitimação política.

A AUTORIDADE RELIGIOSA COMO CAPITAL ELEITORAL

A religião possui uma extraordinária capacidade de produzir pertencimento, confiança e autoridade simbólica. Por isso, sua utilização no campo político exige responsabilidade. 

O problema não está em pessoas religiosas participarem da política, isso faz parte da democracia. O problema surge quando a autoridade espiritual é convertida em capital eleitoral

Quando o púlpito se transforma em palanque, quando a liderança religiosa passa a funcionar como cabo eleitoral, quando a orientação espiritual é utilizada para induzir uma escolha política.

Nesse cenário, o fiel corre o risco de deixar de ser tratado como cidadão autônomo e passar a ser considerado um eleitor que deve obedecer. Isso é particularmente grave porque a democracia pressupõe liberdade de consciência.

O eleitor precisa ter o direito de concordar, discordar, questionar e rejeitar qualquer candidato, inclusive aqueles que afirmam falar em nome de Deus.

DEUS NÃO É CABO ELEITORAL

É necessário estabelecer um limite claro entre fé e disputa eleitoral. Deus não precisa de partido, não precisa de legenda, não precisa de número eleitoral. E nenhum candidato possui uma procuração divina para falar em nome de Deus durante uma eleição.

Uma candidatura é uma decisão humana. Deve ser apresentada à sociedade, submetida ao debate público e avaliada livremente pelos cidadãos.

Quem pretende ocupar um cargo público precisa apresentar propostas, defender ideias, explicar sua trajetória e convencer o eleitor. Não pode utilizar a fé como um argumento que se pretende incontestável.

A convicção religiosa pode orientar a consciência de um candidato. O que não pode acontecer é essa convicção ser transformada em instrumento de submissão da consciência alheia.

O ESTADO LAICO PROTEGE A TODOS

É justamente por isso que a defesa do Estado laico é fundamental. E Estado laico não significa Estado ateu, significa um Estado que não pertence a nenhuma religião e que garante a liberdade de todas.

O evangélico tem o direito de professar sua fé. O católico, o muçulmano, as religiões de matriz africana igualmente, e quem não possui religião também tem o direito de não acreditar. 

A laicidade garante que ninguém seja cidadão de segunda classe por causa da sua crença ou da ausência dela. Mais do que isso, protege a própria religião contra sua apropriação pelo poder político.

QUANDO A FÉ VIRA MERCADORIA

O problema se agrava quando a religião passa a ser tratada como instrumento de conquista, manutenção e reprodução do poder. É quando a fé vira moeda eleitoral, o sentimento religioso vira mecanismo de convencimento e o fiel é transformado em eleitor cativo.

A igreja não é curral eleitoral, o fiel não pertence ao pastor, o eleitor não pertence ao candidato, é Deus não pertence a partido algum.

Um pastor pode ser candidato, um padre pode ser candidato, um babalorixá pode ser candidato, um imã pode ser candidato. Qualquer cidadão, religioso ou não, possui o direito de disputar uma eleição.

Mas, ao entrar na arena política, precisa aceitar as regras da democracia: ser questionado, ser criticado e ser julgado pelo eleitor. Sem transformar discordância em pecado, sem transformar crítica em perseguição religiosa, sem transformar o voto em prova de fé.

A FÉ PRECISA SER LIVRE

Minha crítica, portanto, não é contra a religião, é contra a utilização da religião como instrumento de manipulação política. Quem respeita a fé precisa também protegê-la daqueles que pretendem transformá-la em ferramenta de poder.

A espiritualidade pertence à consciência, a política pertence ao debate público, o voto pertence ao cidadão e Deus, para aqueles que creem, não precisa de candidato. A democracia brasileira não pode aceitar que a liberdade de consciência seja substituída por uma suposta obrigação religiosa.

Porque, quando alguém afirma “Deus mandou você votar em mim”, a pergunta inevitável é: quem deu a esse candidato o direito de falar em nome de Deus para pedir o nosso voto?

Questionar isso não é atacar a fé, é defender a liberdade. E defender a liberdade de consciência é defender a própria democracia. A fé verdadeira não precisa de coerção, a fé verdadeira exige liberdade.

No Alvo com Chico Zé 

— Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia, da geopolítica e do desenvolvimento do Brasil.