A final da Copa do Mundo vai muito além do futebol, ela convida à reflexão sobre identidade nacional, racismo, memória histórica e o compromisso das sociedades com a democracia, a igualdade e a justiça social.
Por Francisco José de Oliveira
Há poucas horas uma seleção levantará a taça da Copa do Mundo. Milhões de pessoas estarão diante da televisão, nas arquibancadas ou conectadas às redes sociais, acompanhando o desfecho do maior espetáculo do futebol. Como qualquer apaixonado pelo esporte, também gosto da emoção de uma grande decisão, mas, como cientista social, confesso que a pergunta que mais me interessa não é quem será o campeão.
A questão que me provoca é o que essa final revela sobre as sociedades que chegaram até ela?
O futebol nunca foi apenas futebol. Ele traduz identidades nacionais, expressa conflitos sociais, reproduz desigualdades, desafia preconceitos e, muitas vezes, expõe contradições que a política e a história insistem em esconder. Cada seleção representa muito mais do que um conjunto de jogadores talentosos, ela carrega consigo a memória, os valores e as disputas de seu próprio país.
A Argentina, por exemplo, construiu, durante décadas, uma narrativa segundo a qual seria uma espécie de extensão da Europa na América Latina. Esse imaginário difundido por diferentes governos e elites intelectuais ajudou a invisibilizar parte significativa da contribuição indígena e afrodescendente para a formação do país. Isso não significa negar sua forte imigração europeia, mas reconhecer que a identidade argentina é muito mais diversa do que a versão oficial permitiu admitir durante muito tempo.
A Espanha percorreu outro caminho. Após superar a longa ditadura franquista, consolidou uma democracia moderna e tornou-se referência em diversos direitos civis e sociais. No entanto, continua convivendo com manifestações recorrentes de racismo, especialmente nos estádios de futebol. Os ataques sofridos por atletas negros demonstram que instituições democráticas sólidas não eliminam, automaticamente, preconceitos históricos. Democracia política e igualdade social caminham juntas, mas nem sempre no mesmo ritmo.
E nós, brasileiros?
Também construímos uma narrativa confortável sobre nós mesmos. Durante boa parte do século XX acreditamos viver em uma “democracia racial”, como se a miscigenação tivesse eliminado os conflitos produzidos por mais de três séculos de escravidão. A realidade mostrou outra coisa. As desigualdades raciais persistem, assim como a concentração de renda, as diferenças de acesso à educação, à saúde, ao mercado de trabalho e aos espaços de poder.
Isso não significa ignorar os avanços conquistados nas últimas décadas. A Constituição Federal de 1988 ampliou direitos, políticas públicas promoveram inclusão social, ações afirmativas democratizaram o acesso ao ensino superior e milhões de brasileiros passaram a exercer uma cidadania antes negada. Esses avanços, entretanto, não encerram a luta por uma sociedade verdadeiramente igualitária. A democracia é um processo permanente, nunca uma obra concluída.
É justamente por isso que o futebol continua sendo um extraordinário espelho da sociedade. Dentro das quatro linhas o talento individual é importante, mas nenhuma equipe conquista um título sem organização coletiva, respeito às diferenças, cooperação e compromisso com um objetivo comum. Fora dos gramados, as nações enfrentam um desafio semelhante, o de construir sociedades capazes de transformar diversidade em inclusão e crescimento econômico em justiça social.
A grande pergunta, portanto, não deveria ser apenas quem levantará a Copa do Mundo. Deveríamos questionar também quais países conseguem garantir dignidade, oportunidades e direitos para toda a população. Afinal, um troféu pode eternizar uma geração de atletas, mas uma democracia sólida pode transformar o destino de várias gerações de cidadãos.
No fim das contas o verdadeiro campeonato não é decidido apenas no apito final. Ele é disputado todos os dias nas escolas, nas universidades, nos parlamentos, nas comunidades, nos locais de trabalho e nas políticas públicas que definem quem terá acesso à cidadania plena.
Porque a maior vitória de uma nação não cabe em uma taça, ela é conquistada quando liberdade, igualdade, diversidade e justiça social deixam de ser promessas e passam a fazer parte da vida cotidiana de todo o povo.
No Alvo com Chico Zé — Informação, análise e pensamento crítico a serviço da soberania nacional, da democracia, da geopolítica e do desenvolvimento do Brasil.
Referências
ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Jandaíra, 2019.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

