O que está acontecendo entre o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal merece muito mais do que torcida política. Merece atenção, transparência e responsabilidade institucional.
Por Francisco José de Oliveira / Chico Zé
O ministro André Mendonça determinou o afastamento, por 90 dias, do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa, após alegar que teria sido monitorado pela própria PF durante semanas. Se houve monitoramento ilegal é gravíssimo e precisa ser rigorosamente investigado. Ninguém, nem mesmo um ministro do STF, pode ser alvo de uma investigação clandestina ou abusiva.
Mas há uma questão que não pode ser ignorada: quando a autoridade que se considera atingida pelo episódio também determina o afastamento dos dirigentes da instituição supostamente envolvida, quem garante a imparcialidade da apuração?
No centro da controvérsia está um relatório de inteligência cuja autoria e origem precisam ser esclarecidas. Se o documento é legítimo, que sejam demonstradas sua cadeia de produção e sua responsabilidade. Se houve irregularidade, que os responsáveis sejam identificados. A sociedade não pode aceitar que um documento sem autoria claramente definida seja suficiente para produzir uma crise institucional dessa dimensão sem que tudo seja devidamente esclarecido.
E existe ainda o caso Banco Master. Mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro levantam suspeitas de tentativa de interlocução com autoridades para influenciar o andamento das investigações. Isso não significa, por si só, prova de crime, mas significa que há perguntas que precisam de respostas.
Quem foi procurado? Por quê? Houve tentativa de interferência? Alguém sofreu pressão? Alguma investigação foi afetada?
Não podemos transformar esse episódio em uma guerra entre o STF e a Polícia Federal. Se houve abuso na PF, que seja investigado. Se houve irregularidade na produção do relatório, que seja esclarecida. Se houve tentativa de interferência nas investigações, que se apure. E se houver excesso na reação institucional, isso também precisa ser examinado.
Um abuso não pode justificar outro abuso.
O STF não pode estar acima da fiscalização. A Polícia Federal também não. Nenhuma autoridade deve ser blindada por causa do cargo que ocupa. É disso que estamos falando, da República.
Porque instituições fortes não são aquelas que nunca podem ser questionadas, mas aquelas que aceitam ser fiscalizadas, investigadas e controladas dentro da Constituição. No final, a pergunta permanece: quem vigia os vigias?
O Brasil precisa de respostas. Precisa de transparência. Precisa de instituições independentes e, acima de tudo, comprometidas com o interesse público. A República não pode ter donos, o poder precisa ter limites e a verdade não pode ter partido.
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